HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Terceira Margem

A Nova História, ou a história predominantemente narrativa, é a tendência historiográfica contemporânea mais difundida. Porém não se pode, ingenuamente, pensar que é a única. Ainda é perceptível a influência de concepções marxistas, estruturalistas, revisionistas, além de tantas outras. Uma das principais características do mundo atual é, indubitavelmente, a hiperfragmentação das propostas, dos conceitos, das teorias... Conforme Ciro Flamarion Cardoso (1995) existem atualmente duas posturas historiográficas dominantes – a social e a cultural – com parâmetros e prerrogativas diversas e, não raro, divergentes. Criar uma terceira opção, em confluência com as anteriores, é a defesa central do texto do professor Durval Muniz de Albuquerque Junior.

É uma preocupação comum aos historiadores perceber, no processo histórico e, conseqüentemente, em seu objeto de estudo, as rupturas e as permanências, o imaginário coletivo e as ações individuais. As concepções estruturalistas, calcadas na cultura moderna, enfatizam a importância da continuidade, na tentativa de alcançar a totalidade do conhecimento histórico. As perspectivas pós-modernas, no entanto, salientam que o objeto de estudo do historiador deve ser as rupturas, as descontinuidades, conscientes da impossibilidade da história total. O autor radicaliza sua defesa ao afirmar que é impossível ser pós-moderno sem ser estruturalista – o inverso segue o mesmo princípio. O entendimento histórico depende da compreensão das estruturas – continuidades – e de como as rupturas interferem neste processo.

De modo a elucidar seu pensamento relativista, o autor faz uso de uma metáfora. Compara o curso da história ao de um rio. As margens são os paradigmas divergentes. O historiador não pode ficar estático em uma das margens, pois nunca é seguro, visto que o rio/história sempre está em movimento, de acordo com a dialética heraclitiana. Deve se colocar no meio do rio, das águas turvas da história, aportando – conforme achar necessário – em uma ou outra margem paradigmática. Pensar a história da terceira margem "[...] significa primeiro pensar que a História não se passa apenas no lugar da natureza, da coisa em si, do evento, da matéria ou da realidade, nem se passa apenas no lado da representação, da cultura, da subjetividade, do sujeito, da idéia ou da narrativa, mas se passa entre elas, no ponto de encontro e na mediação entre elas, no lugar onde estas divisões ainda são indiscerníveis, onde estes elementos e variáveis se misturam.” (p.28)

Existem também ilhas, sedimentações, bifurcações... no rio. Estas ilhas sedimentadas são os fatos/acontecimentos, que ficam marcados na memória coletiva de modo que tornam-se paradas obrigatórias, onde o historiador deve dispensar um tempo considerável. É importante ater-se ao fato de que estas “ilhas” não estão em nenhuma das “margens” especificamente, ao mesmo tempo em que são visíveis das duas. Compreende-se então que o autor quer afirmar que a história existe na medida em que há uma interligação entre o que está estabelecido – estrutura – é o discurso criado simbologicamente a partir de eventos que ocorrem devido a ação efetiva do ser humano.

Faz-se perceptível o quanto é subjetiva a ação do historiador. Pois, com base nas afirmações do autor, por estar dentro do rio, compreende-se que está no fluxo da história e que, consequentemente, suas atitudes e percepções são por esta influenciada – embora caiba ao pesquisador optar quais aspectos salientar com maior ou menor ênfase. Sobre esta perspectiva é impossível definir-se como neutro, pois, mesmo inconscientemente, é levado a pensar de uma forma ou outra devido aos condicionantes históricos, econômicos, sociais, políticos, aos quais se encontra submetido. Neste ínterim, Albuquerque Jr. salienta que o historiador detém uma “consciência irônica”, pois, ao saber que é movido pelo contexto conjuntural, sabe que é incapaz de apresentar os fatos exatamente como aconteceram, tal como queria Ranke, mas busca responder as indagações de seu período, ressaltando que, segundo Block, é um cientista do presente, “[...] é alguém que tem a tarefa de descolar desta memória cristalizada, de fazer com que esta retorne ao fluxo temporal, que se liquefaça, para que novamente possa correr na direção do futuro.” (p.33)

Nesta nova tendência historiográfica – cultural – o discurso, ou melhor, as análises discursivas, tem conquistado maior espaço. Isto se deve, entre outras coisas, à aproximação da história com a lingüística e a semiótica. De forma sensível muitos trabalhos recentes apresentam nas titulações a terminologia “invenção”, como se faz notar nas obras de Bann (As Invenções da História, 1994), O’Gorman (A Invenção da América, 1992) entre tantos outros. Mas não é um privilégio apenas da história. A sociologia, a antropologia, a política... apresentam as mesmas tendências. Este uso terminológico comum – embora não há consenso nem mesmo entre os historiadores sobre seus significados – aponta para a afinidade entre as ciências – metodologias, conceitos... – no pós-“fim da história”, de forma semelhante ao contexto da metade do século XX, com a expressão “formação”. Qualquer leitos atento atenta que estas questões são frutos de um determinado período histórico, e que podem ser refutadas em um futuro não distante. Neste ponto apresenta-se novamente a “consciência irônica”, pois ao escrever, o historiador sabe que está elaborando um discurso – mesmo que seu objetivo seja desconstruir outro – e este apresenta muito mais características do período de sua composição do que do período/objeto de estudo.

Referência

ALBUQUERQUE JR. Durval Muniz de. Da Terceira Margem eu So(u)rrio: sobre história e invenção. IN: ALBUQUERQUE JR. Durval Muniz de. História: a arte de inventar o passado. Bauru, SP: Edusc, 2007. (p.19 a p.39)

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