HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Menocchio, o Queijo e os Vermes

Resenha de O Queijo e os Vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição de Carlo Ginzburg.
O que salta os olhos na obra do italiano – que fora professor na Califórnia e em Pisa – Carlo Ginzburg? Indubitavelmente é a tenaz perspicácia com que busca pistas/dicas sobre o seu objeto de estudo. O autor de “O queijo e os Vermes” e de “História Noturna” não se permite a um fácil enquadramento teórico metodológico. Faz uso de expressões marxistas – granscianas – como a de “classe subalterna”, conforme argumenta: “uso a expressão [...] ‘classes subalternas’ por ser suficientemente ampla e despida das conotações paternalistas de que está inbuída ‘classes inferiores’.” (p. 199) Concomitante aceita questões e abordagens do chamado “paradigma pós-moderno” – conforme classificação de Cardoso (1995) – como a noção de mentalidade, discurso, retórica... Trata-se de desenvolver uma história que resista aos ataques de pós-estruturalismo ao mesmo tempo em que “se vê” isenta do domínio fechado de ortodoxias paradigmáticas. Nesta perspectiva o historiador já produziu – para além das duas obras citadas acima – “O Fio e os Rastros”, “Mitos, Emblemas e Sinais: morfologia e história”, “Os Andarilhos do Bem: Feiticeiros e Cultos agrários nos séculos XVI e XVII”, entre outros. É perceptível que o objeto de estudo, no qual é especialista, é a Europa pré-industrial, ou, de forma mais especifica, a cultura popular – das classes subalternas portanto – da Europa pré-urbanização. É no tocante ao objeto de estudo que a complexidade da obra de Ginzburg se faz perceptível: como encontrar vestígios de uma cultura baseada apenas na oralidade, ou seja, na transmissão continuada de valores e conceitos de geração para geração, sem que neste processo ocorresse o registro, ou, quando este ocorria, era feito pela elite letrada, distorcendo os sentidos originais? Impossível encontrar – elaborar – uma resposta indelével, mas a afirmativa do autor pode clarear esta nebulosa perspectiva: “[no caso especifico da obra] As raízes de suas afirmações e desejos estão fincadas muito longe num estrato obscuro, quase indecifrável, de remotas tradições camponesas.” (p. 23). E continua, de forma generalizante: “Respeitar o resíduo de indesifrabilidade que há nela e que resiste a qualquer analise não significa ceder ao fascínio idiota do exótico e do incompreensível significa apenas levar em consideração uma mutilação histórica da qual, em certo sentido, nós mesmos somos vítimas.” (p.26)

Olhos atentos revelam um inusitado no que concerne à prefaciação: as diferenças gritantes entre os prefácios às edições inglesa e italiana. No texto “à inglesa” o autor, em poucas linhas e palavras fáceis, se preocupa basicamente em apresentar a obra – como “nasceu” a pesquisa, apresentar a personagem, etc. –, ressaltando um único conceito adotado – o da “circularidade”, advindo de Mikhail Bakhtin – sem refutar outras teorias e perspectivas. O mesmo não ocorre no texto em que dedicou à edição italiana. Neste o autor se preocupou com teorias, perspectivas, obras anteriores, desafios da pesquisa histórica e da produção historiográfica, etc. Salientou a importância para a disciplina/ciência histórica da incorporação de conceitos oriundos de outras áreas – antropologia, sociologia... –, principalmente o de “cultura popular”. Afirma que deste modo “[...] foi superada, pelo menos verbalmente, não só a concepção antiquada de folclore como mera coleção de curiosidades, mas também a posição de quem distinguia nas idéias, crenças, visões de mundo das classes subalternas nada mais do que um acúmulo inorgânico de fragmentos de idéias, crenças, visões de mundo elaboradas pelas classes dominantes provavelmente vários séculos antes. A essa altura começa a discussão sobre a relação entre cultura das classes subalternas e das classes dominantes.” (p. 12).

Percebe-se que desta forma Ginzburg se aproxima da noção de circularidade de Bakthin, expressa na obra “A cultura popular na Idade Médica e no Renascimento”, negando a concepção de que a cultura popular é um emarranhado de associações feitas por populares com base na cultura dominante, ou ainda, um mecanismo da cultura dominante para disseminar práticas e hábitos entre os populares. Mantendo assim o seu domínio, como se vê expresso na obra, de Robert Mondrou “De la cultuire populaire aux 17 et 18 sie siécles é la bibliothique bleue de Troyes (1964). Nega também um outro pólo – defendido por Genoviève Bollème , na obra “Représentation religiouse et thèmes d’epérance dans la ‘Biblioteque Bleu’; litterature populaire em France du XVII aux XIX siècle” (1973), é importante salientar que mesmo se utilizando em algumas metodologias pós-modernas, o autor também a nega enquanto paradigma histórico, critica Foucalt com a expressão “o que interessa sobretudo a Foucalt são os gestos e os critérios da exclusão; os exclusos, um pocuo menos. [...] A essas alturas o ambicioso projeto foucaltiano de uma ‘arqueologia do silêncio’ transformou-se em silêncio puro e simples – por vezes acompanhado de um muda contemplação estetizante.” (p. 16). É sem dúvidas um historiador da história cultutal – ou das mentalidades, ou das idéias – que busca ler os documentos “à contra-pêlo” buscando pistas que o possibilite à análise da cultura das “classes subalternas”.

A personagem central da obra é um moleiro chamado Domenico Scandella, mais conhecido como Monocchio. Figura singular. Produto de seu período histórico e suas especificidades. Era o século XVI. A Igreja Católica perdia o monopólio da salvação das almas para igrejas oriundas da “Reforma” – luterana, anglicana e calvinista – e intensifica a repressão nos territórios em que mantém seu domínio. A elite letrada – grande maioria formada por clérigos – perde o monopólio do saber para a imprensa, após a invenção da prensa por Guttenberg. Monocchio era um popular com uma considerável vantagem sobre os demais: sabia ler, escrever e contar. Isso, para o século em questão, era muito raro entre os camponeses – até mesmo entre os senhores. Esta habilidade proporcionou ao moleiro (que trabalha com moinho) o acesso à varias obras religiosas – as quais eram as mais publicadas pelos autores humanistas, mesmo estas sendo constantes no Index. Este acesso à obras literárias e religiosas – provavelmente até o Alcorão – aponta ao fato de que Monocchio tinha contato com a cultura dominante, entretanto, suas afirmações e teorizações revelam a existência de uma gama de conceitos pré-textuais que orientavam a leitura e a abstração do que era lido. Uma espécie de “chave de leitura”. “Confrontando, uma por uma, as passagens dos livros por ele citados com as conclusões às quais chegava [...], nos vemos às voltas, invariavelmente, com lacunas e deformações, às vezes profundas. [...] Mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave de sua leitura, a rede que Monocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras, que exagerava o significado de uma palavra, isolando-a do contexto, que agia sobre a memória de Monocchio deformando sua leitura. Essa rede, essa chave de leitura, remete continuamente a uma cultura diversa da registrada na página impressa: uma cultura oral.” (p. 72). A personagem representa, portanto, não uma cultura camponesa autônoma ou uma simples aceitação passiva de conceitos impostos; mas sim a constante interação entre os universos mentais e culturais das elites e das baixas camadas, conforme é apresentado na teoria de Bakthin.

Uma indagação importante é a de como um moleiro pobre pode – naquele contexto histórico – ter acesso à esta literatura? Ginzburg ensaia uma resposta, afirmando que provavelmente existia na Itália de então uma considerável rede de leitores (nobres, clérigos e alguns populares). Isso pôde ser abstraído de algumas afirmações de Monocchio durante um processo inquisitorial, nos quais salientou que conseguia os livros através de contatos – alguns deles membros da Igreja. No que concerne às teorias – ou a eclesiologia – do moleiro friulano a abordagem se torna mais subjetiva. Existe uma mescla de princípios luteranos, anabatistas e da mitologia camponesa. A empiricidade de suas afirmativas se faz notável. A idéia de um mundo que teve na putrefação sua gênese e a subseqüente associação do mundo à um queijo – que após qualhar “dá origem à vermes” (noção comum no período de que os seres viventes eram oriundos de naturezas inanimadas). Esta característica do pensamento desenvolvido por Monocchio é fruto do cotidiano, dos hábitos e práticas, numa tentativa de racionalizar o mundo – sua origem – e torná-la palatável. Concomitante à defesa desta gênese – na qual deus também surgiu da putrefação (era um dos vermes) – defendia uma “reforma” nas práticas eclesiásticas uma igreja: mais simples, não pautada na ornamentação e na concentração de recursos capitais, “a exigência de uma Igreja que abandonasse seus privilégios, que se fizesse pobre com os pobres, ligava-se à formulação, na esteira dos Evangelhos, de um conceito diferente de religião, livre de exigências dogmáticas, resumível a um núcleo de preceitos básicos [...]” (p. 41). Essa proposta – no mínimo reformista – defendida e difundida por Monocchio não era tolerada pela Igreja da Contra-Reforma. É provável que em outro contexto o moleiro receberia uma punição mais branda – embora provavelmente não teria tido oportunidades para desenvolver tal eclesiologia. Em linhas gerais, a Reforma possibilitou à Monocchio a coragem e a imprensa os argumentos para falar. A Contra-Reforma o levou para a fogueira por falar demais.

É possível perceber na obra de Carlo Ginzburg a preocupação em não limitar o texto à personagem. Todo um cenário contextual é montado e “palpável” ao leitor. O período era de crise e efervescência. Crise de uma sociedade que tentava manter características feudais em uma Itália tomada pelas cidades e pelo comércio. Efervescência de idéias – a Reforma, o Renascimento, os árabes... “O queijo e os vermes” contribui para a desconstrução de mitos antigos, construídos pela historiografia tradicional, entre eles o da homogeneidade e cumplicidade entre os membros da(s) classe(s) dominante(s). Ao elucidar um cenário de disputas de poder Ginzburg salienta as disputas e a rivalidade entre as elites de Veneza e do Friuli e de como a primeira buscava se aproximar dos camponeses do Friuli para lhes dar apoio em ataques e boicotes. Reforçando deste modo as afirmações de Bakthin sobre as relações entre as classes e a circularidade entre as culturas destas. No tocante às classes subalternas também não existia homogeneidade. Devido à cultura extremamente religiosa muitas funções, profissões, ou mesmo hábitos, tornava uma pessoa indígena ou indesejada. E o moleiro era uma destas pessoas, conforme o poema de André de Bergamo – muito popular no período – “um verdadeiro moleiro é meio luterano”, ou ainda neste canto popular da Toscana: “Fui até o inferno e vi o Anticristo / [...] pela barba um moleiro segurava / e tinha um alemão por sob os pés / e um taverneiro e um magarefe pressos: / lhe perguntei qual era o mais malvado / e ele me disse: ‘Atenta que eu te mostro. / Vê bem quem é que com as mãos rapina: / o moleiro que mói a alva farinha. / Vê bem quem é que com as mãos agarra: / o moleiro que mói a farinha alva. / Da quarta parte salta o alqueire inteiro: / o mais ladrão de todos é o moleiro’”. (p. 181). Provavelmente este imaginário pesou para as denúncias e a subseqüente condenação do Monocchio – sendo o moleiro quem descontava o fisco, atraia a ira dos camponeses pobres.

Monocchio foi uma figura ímpar. Membro de uma cultura oral hoje destruída e irresgatável em sua totalidade. É um grito silencioso pela vontade e direito de falar – embora não conseguiu expor seu pensamento a um papa, um rei ou príncipe, conforme era seu desejo. Encontrou nos atentos inquisitores uma platéia receptiva, interessada, em seu pensamento. É um predecessor da liberdade de expressão pois queria falar, mas manter-se vivo, conforme atestavam as duas cartas enviadas aos inquisitores nos dois processos em que esteve envolvido. Mesmo condenado – no primeiro processo – a viver conforme as leis da Igreja, portando sempre um sambenito, não pôde conter seu ímpeto investigativo, voltando a ser processado... e queimado. Monocchio não representa a cultura popular. Nem a elítica. É como um antepassado perdido que vêm a nosso encontro. É a simbiose epistêmica da cultura popular com o das classes dominantes conforme defendem Ginzburg e Bakthin.

Referência

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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