Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende “[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história.” (p.8). Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.
Hobsbawm é muito conhecido como um marxista engajado e estudioso do século XIX. Sua trilogia sobre este período é leitura obrigatória para qualquer acadêmico de história. Porém nos últimos anos tem se preocupado com outra concepção historiográfica: a do tempo presente, ou melhor, “a do seu próprio tempo.” A primeira publicação deste artigo, em 1993, foi concomitante com sua obra “Era dos Extremos – o breve século XX.” A partir das experiências adquiridas neste trabalho argumenta questões pertinentes para todo o pesquisador-historiador que queira escrever sobre seu próprio tempo. Existem, segundo o autor, três questões importantes a ser ressaltadas: as concepções históricas das diferentes gerações, mesmo que estas orbitem em torno de um mesmo paradigma; como a passagem dos anos e os acontecimentos histórico e pessoais interferem na mudança da ótica na relação passado-presente; e, como o historiador – que é essencialmente um intelectual – pode ser influenciado pelos conceitos e pré-conceitos de seu período histórico e de sua sociedade. Em primeiro lugar é preciso ter claro que toda a produção historiográfica diz muito mais sobre o contexto em que é produzida do que sobre o seu objeto de estudo – isso já é consenso mesmo entre posturas paradigmáticas oponentes. Mas muito diferente do que escrever história de períodos passados influenciados por concepções contemporâneas é escrever a história de seu próprio tempo incorrendo no risco de cometer anacronismos e ser alvo de críticas de historiadores futuros que discordem de suas afirmações possivelmente superficiais.
A forma de olhar acontecimentos passados varia conforme a idade e a experiência do historiador. Um historiador que – em idade adulta – viveu o período da queda da URSS verá este fato de uma maneira diferente do que um jovem historiador ainda criança ou mesmo não nascido no período. Porém Hobsbawm salienta que não significa que só um historiador experiente pode chegar à conclusões que se aproximam mais do espírito de época coletiva, mas sim que o jovem precisa de um esforço muito maior, de um poder de imaginação, de sensibilidade, e de uma excelente pesquisa para tal. O experiente tem uma gama de vantagens, mas a mais importante é a de saber, sem ter que buscar fontes alheias, o quanto as coisas mudaram, o quanto o mundo se transformou nos últimos cinqüenta ou sessenta anos – isso, para um historiador do tempo presente faz muita diferença. Conforme o autor “aqueles que têm idade o bastante para se lembrarem não se fiam nessas mudanças. Sabem, como muitos jovens historiadores não conseguem saber sem um esforço especial, que ‘o passado é outro país. Lá eles fazem as coisas de modo diferente’. Isso pode ter uma relação direta com nosso juízo tanto sobre o passado quanto sobre o presente. [...] Na medida em que o começo da compreensão histórica é uma apreciação da alteridade do passado, e o pior pecado dos historiadores é o anacronismo, dispomos [experientes historiadores] de uma vantagem inerente para compensar muitas de nossas desvantagens “. (p. 248)
A segunda questão – de como o “andar da história” interfere na forma de olhar para ela própria – pode surpreender até mesmo os mais experientes e atentos historiadores. Para exemplificar esta questão o autor expõe sua própria experiência. Em princípios da década de 1990, ao iniciar o processo de produção da obra “Era dos Extremos: o breve século XX” – que é uma “história do tempo” em que o autor viveu/vive – optara por dividir o século em dois momentos distintos, um iniciando em 1914 e encerrando em 1945 e o outro de 1645 à 1990-1. Podemos perceber que o primeiro momento é de crise – guerras mundiais, epidemias, grande depressão, holocausto, regimes totalitários... – e o segundo o oposto – de ascensão desenvolvimento do capitalismo liberal, a “época de ouro”... Porém, devido aos acontecimentos de 1991 e a manutenção do “estado de crise” oriundo da crise de 1973 – do petróleo – o cenário que se abria não era dos mais promissores. O próprio autor já havia salientado sobre este cenário em meados dos anos 1970 com base nos “ciclos de longa duração de Kondratiev”. A nova perspectiva que se vislumbrava apontava que não era mais possível um díptico para o século XX, se fazia necessário um tríptico, ou – conforme o autor – um sanduíche, ou seja, uma era de “progresso”, desenvolvimento capitalista, expansão de mercados... entre 1645 e 1973, separando dois momentos de crise importantes para o sistema capitalista e para a sociedade ocidental. Em linhas gerais poderíamos afirmar que um historiador que escreveu sobre o século XX na década de 1970 o viu – e fez – diferente de um contemporâneo nosso. Isso se explica porque o tempo corrente – suas rupturas e continuidades – alteram as lentes – conforme Spencer – com as quais o cientista “do passado” – que é na verdade um cientista do presente – observa seu objeto de estudo.
O último item problemático citado por Hobsbawm tem relação com o engajamento político e com pressupostos comuns – inseridos em um contexto social – perspectiveis para olhares desatentos. Ainda concernente à esta questão, Hobsbawm afirma que os consensos, os modismos teórico-metodológicos, nas ciências – principalmente as sociais – agravam esta problemática. Em relação à questão do engajamento e dos pressupostos generalizantes podemos usar como exemplo a postura historiográfica de um americano que tenha servido seu exército na Guerra do Golfo. Ao retratar este conflito suas experiências pessoais se farão presentes e é possível que seu relato se torne anacrônico ao tentar justificar o conflito com argumentos políticos baseados em discursos e em notícias manipuladas. Outro exemplo que poderia ser utilizado é o de um militar brasileiro que, durante o período do Regime militar serviu o exército e produziu uma obra historiográfica sobre o período – caso do general Golbery de Couto e Silva. Concernente aos modismos e consensos, a preocupação de Hobsbawm e ambígua: em primeiro lugar critica os modismos que geram consensos universais e repudiam posições contrárias fechando-se em uma espécie de irracionalismo e, em segundo, defende alguns consensos que não poderiam ser questionados por modismos motivados por objetivos políticos. Fica evidenciada a crítica de Hobsbawm à escola pós-moderna e ademais acerca da primeira questão não precisa ser ressaltado. No segundo defende que alguns fatos não podem ser questionados enquanto fato, mas sim seus usos e abusos políticos – o holocausto é um dos principais exemplos. Permanecendo na questão dos consensos, o autor lança uma nova problemática. Critica a divisão binária do século XX – “comunismo” e capitalismo, conforme é consensual –, mas salienta que “[...] estamos mais uma vez a mercê do tempo. Se hoje é possível pelo menos abandonar o padrão dos opostos binários mutuamente exclusivos, ainda não se tem nenhuma clareza sobre qual das alternativas concebíveis pode ser substituído de modo mais proveitoso. Mais uma vez, devemos deixar que o século XXI tome suas próprias divisões.” (p. 253).
É possível perceber que o autor adverte sobre as problemáticas e armadilhas da prática historiográfica do presente – ou do tempo vivido – e, concomitantemente, instiga o historiador a praticá-la. É indubitavelmente um campo de estudos inesgotável, muito pouco pode ser previsto, “[...] a experiência fundamental de todos que viveram grande parte deste século é erro e surpresa. O que aconteceu foi, quase sempre, totalmente inesperado. Todos nós nos equivocamos mais de uma vez em nossas avaliações e expectativas.” (p. 254). É se desgarrando de consensos universalistas e do senso comum que o historiador pode perceber as rupturas e continuidade de seu próprio período histórico.
Referência
HOBSBAWM, Eric. O Presente como História. IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 543 à 255.
Hobsbawm é muito conhecido como um marxista engajado e estudioso do século XIX. Sua trilogia sobre este período é leitura obrigatória para qualquer acadêmico de história. Porém nos últimos anos tem se preocupado com outra concepção historiográfica: a do tempo presente, ou melhor, “a do seu próprio tempo.” A primeira publicação deste artigo, em 1993, foi concomitante com sua obra “Era dos Extremos – o breve século XX.” A partir das experiências adquiridas neste trabalho argumenta questões pertinentes para todo o pesquisador-historiador que queira escrever sobre seu próprio tempo. Existem, segundo o autor, três questões importantes a ser ressaltadas: as concepções históricas das diferentes gerações, mesmo que estas orbitem em torno de um mesmo paradigma; como a passagem dos anos e os acontecimentos histórico e pessoais interferem na mudança da ótica na relação passado-presente; e, como o historiador – que é essencialmente um intelectual – pode ser influenciado pelos conceitos e pré-conceitos de seu período histórico e de sua sociedade. Em primeiro lugar é preciso ter claro que toda a produção historiográfica diz muito mais sobre o contexto em que é produzida do que sobre o seu objeto de estudo – isso já é consenso mesmo entre posturas paradigmáticas oponentes. Mas muito diferente do que escrever história de períodos passados influenciados por concepções contemporâneas é escrever a história de seu próprio tempo incorrendo no risco de cometer anacronismos e ser alvo de críticas de historiadores futuros que discordem de suas afirmações possivelmente superficiais.
A forma de olhar acontecimentos passados varia conforme a idade e a experiência do historiador. Um historiador que – em idade adulta – viveu o período da queda da URSS verá este fato de uma maneira diferente do que um jovem historiador ainda criança ou mesmo não nascido no período. Porém Hobsbawm salienta que não significa que só um historiador experiente pode chegar à conclusões que se aproximam mais do espírito de época coletiva, mas sim que o jovem precisa de um esforço muito maior, de um poder de imaginação, de sensibilidade, e de uma excelente pesquisa para tal. O experiente tem uma gama de vantagens, mas a mais importante é a de saber, sem ter que buscar fontes alheias, o quanto as coisas mudaram, o quanto o mundo se transformou nos últimos cinqüenta ou sessenta anos – isso, para um historiador do tempo presente faz muita diferença. Conforme o autor “aqueles que têm idade o bastante para se lembrarem não se fiam nessas mudanças. Sabem, como muitos jovens historiadores não conseguem saber sem um esforço especial, que ‘o passado é outro país. Lá eles fazem as coisas de modo diferente’. Isso pode ter uma relação direta com nosso juízo tanto sobre o passado quanto sobre o presente. [...] Na medida em que o começo da compreensão histórica é uma apreciação da alteridade do passado, e o pior pecado dos historiadores é o anacronismo, dispomos [experientes historiadores] de uma vantagem inerente para compensar muitas de nossas desvantagens “. (p. 248)
A segunda questão – de como o “andar da história” interfere na forma de olhar para ela própria – pode surpreender até mesmo os mais experientes e atentos historiadores. Para exemplificar esta questão o autor expõe sua própria experiência. Em princípios da década de 1990, ao iniciar o processo de produção da obra “Era dos Extremos: o breve século XX” – que é uma “história do tempo” em que o autor viveu/vive – optara por dividir o século em dois momentos distintos, um iniciando em 1914 e encerrando em 1945 e o outro de 1645 à 1990-1. Podemos perceber que o primeiro momento é de crise – guerras mundiais, epidemias, grande depressão, holocausto, regimes totalitários... – e o segundo o oposto – de ascensão desenvolvimento do capitalismo liberal, a “época de ouro”... Porém, devido aos acontecimentos de 1991 e a manutenção do “estado de crise” oriundo da crise de 1973 – do petróleo – o cenário que se abria não era dos mais promissores. O próprio autor já havia salientado sobre este cenário em meados dos anos 1970 com base nos “ciclos de longa duração de Kondratiev”. A nova perspectiva que se vislumbrava apontava que não era mais possível um díptico para o século XX, se fazia necessário um tríptico, ou – conforme o autor – um sanduíche, ou seja, uma era de “progresso”, desenvolvimento capitalista, expansão de mercados... entre 1645 e 1973, separando dois momentos de crise importantes para o sistema capitalista e para a sociedade ocidental. Em linhas gerais poderíamos afirmar que um historiador que escreveu sobre o século XX na década de 1970 o viu – e fez – diferente de um contemporâneo nosso. Isso se explica porque o tempo corrente – suas rupturas e continuidades – alteram as lentes – conforme Spencer – com as quais o cientista “do passado” – que é na verdade um cientista do presente – observa seu objeto de estudo.
O último item problemático citado por Hobsbawm tem relação com o engajamento político e com pressupostos comuns – inseridos em um contexto social – perspectiveis para olhares desatentos. Ainda concernente à esta questão, Hobsbawm afirma que os consensos, os modismos teórico-metodológicos, nas ciências – principalmente as sociais – agravam esta problemática. Em relação à questão do engajamento e dos pressupostos generalizantes podemos usar como exemplo a postura historiográfica de um americano que tenha servido seu exército na Guerra do Golfo. Ao retratar este conflito suas experiências pessoais se farão presentes e é possível que seu relato se torne anacrônico ao tentar justificar o conflito com argumentos políticos baseados em discursos e em notícias manipuladas. Outro exemplo que poderia ser utilizado é o de um militar brasileiro que, durante o período do Regime militar serviu o exército e produziu uma obra historiográfica sobre o período – caso do general Golbery de Couto e Silva. Concernente aos modismos e consensos, a preocupação de Hobsbawm e ambígua: em primeiro lugar critica os modismos que geram consensos universais e repudiam posições contrárias fechando-se em uma espécie de irracionalismo e, em segundo, defende alguns consensos que não poderiam ser questionados por modismos motivados por objetivos políticos. Fica evidenciada a crítica de Hobsbawm à escola pós-moderna e ademais acerca da primeira questão não precisa ser ressaltado. No segundo defende que alguns fatos não podem ser questionados enquanto fato, mas sim seus usos e abusos políticos – o holocausto é um dos principais exemplos. Permanecendo na questão dos consensos, o autor lança uma nova problemática. Critica a divisão binária do século XX – “comunismo” e capitalismo, conforme é consensual –, mas salienta que “[...] estamos mais uma vez a mercê do tempo. Se hoje é possível pelo menos abandonar o padrão dos opostos binários mutuamente exclusivos, ainda não se tem nenhuma clareza sobre qual das alternativas concebíveis pode ser substituído de modo mais proveitoso. Mais uma vez, devemos deixar que o século XXI tome suas próprias divisões.” (p. 253).
É possível perceber que o autor adverte sobre as problemáticas e armadilhas da prática historiográfica do presente – ou do tempo vivido – e, concomitantemente, instiga o historiador a praticá-la. É indubitavelmente um campo de estudos inesgotável, muito pouco pode ser previsto, “[...] a experiência fundamental de todos que viveram grande parte deste século é erro e surpresa. O que aconteceu foi, quase sempre, totalmente inesperado. Todos nós nos equivocamos mais de uma vez em nossas avaliações e expectativas.” (p. 254). É se desgarrando de consensos universalistas e do senso comum que o historiador pode perceber as rupturas e continuidade de seu próprio período histórico.
Referência
HOBSBAWM, Eric. O Presente como História. IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 543 à 255.
Nenhum comentário:
Postar um comentário