Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende “[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história.” (p.8). Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.
O que a história tem a dizer sobre a sociedade contemporânea? Talvez a pergunta do autor deveria ser reformulada para: o que a história tem a nos dizer em uma sociedade contemporânea em constante mutação? Ou então, sob outro olhar: qual é a importância de conhecer o passado em uma sociedade que valoriza apenas o palpável gerador de lucros e divisas? São estas as questões que Hobsbawm se propõe a responde – ou não – neste artigo publicado inicialmente em 1984 e revisto para a republicação na obra “Sobre História”, em 1997. Mas é importante salientar – e fica claro no texto – que não se trata de uma autodefesa, mas sim uma análise sistemática e crítica sob a postura que os historiadores devem tomar em um contexto de crise – do Estado de Bem Estar Social – onde as orientações explicativas não surtem mais o efeito esperado – o que é totalmente discutível, visto que o autor defende uma postura analítica materialista e dialética, se opondo às correntes pós-estruturalistas fragmentárias ou oriundas da “Nova História” dos Annales.
Em primeiro lugar, qual é o sentido de registrar o passado? Até o processo de revolução produtiva, em meados do século XVIII, e desde o mundo clássico, a história foi entendida como a “mestra da vida”. Heródoto assim a chamara. Santo Agostinho e Thomas de Aquino não fugiram desta concepção – embora o enfoque religioso fosse predominante. Os próprios renascentistas assim a entendiam, seguidos pelos românticos e alguns positivistas. Mas a partir da formação de sociedades industriais, as inovações foram muito mais marcantes do que as continuidades – salvo algumas exceções políticas como o Líbano. Isso não quer dizer que não ocorreram rupturas no período pré-revolução industrial e muito menos que o “homo” moderno é mais desenvolvido mentalmente que o das sociedades antigas ou de caçadores-coletores. O período é consideravelmente curto para mudanças fisiológicas de caráter genético e/ou evolutivo – embora o homem de hoje, devido à alimentação, é notadamente mais alto e pesado. Cada geração, principalmente nos últimos 50 anos, trás consigo um elemento novo, uma moda, um estilo – rock, punks, skinnheads, nerds, emos... – e sem dúvidas essas rupturas são mais visíveis para olhos desatentos do que as permanências, as estruturas.
Para Hobsbawm, o historiador deve ser generalista e, ao mesmo tempo, estar atento às especificidades. São a experiência e a sensibilidade histórica as principais contribuições da história para o mundo atual. O desenvolvimento de tecnologias, cada vez mais avançadas, fez com que o ser humano buscasse respostas para seus problemas em programas de computação – reais ou ideais. Este sistema indiscutivelmente trouxe avanço em ciências exatas ou naturais, mas no tocante as humanas – políticas e sociais – os estragos podem ser incalculáveis. Porém ainda é utilizado por servir aos interesses de grupos dominantes que preferem um sistema cego e irracionalista a um inteligível. Um exemplo interessante negado por quase todos os economistas liberais, é o dos ciclos econômicos de longa duração – de crescimento e recessão – de Kondratiev, os quais são aceitos por quase todos os historiadores da vertente marxista. Segundo este sistema cíclico, o capitalismo passa por fases intermitentes de expansão de mercados – 20 a 30 anos – sucedida por recessão e reorganização do sistema – de período semelhante. Foi desta forma que os historiadores puderam afirmar a eminência da crise do petróleo, que levou o Estado do Bem Estar Social à ruína.
Outra característica dos “Kondratievs” é que cada um tem divergências gritantes tanto com seu antecessor quanto com seu sucessor – o que se evidencia na seqüência “liberalismo-Keyenasianismo-neoliberalismo”. O período em questão – a sociedade contemporânea – apresenta características específicas no próprio sistema de produção, conforme salienta Hobsbawm, “durante a maior parte da história, o mecanismo básico para o crescimento econômico foi a apropriação do excedente social gerado pela capacidade do homem de produzir por meio de um outro tipo de minoria para fins de investimento em melhoria condicional, ainda que nem sempre assim utilizado. O crescimento operava por meio da desigualdade. Então, até agora, isso foi compensado até certo ponto pelo enorme crescimento da riqueza total que, como mostrou Adam Smith, tornou até mesmo o trabalhador em economias desenvolvidas materialmente melhor que o cacique pele-vermelha, e que, em geral, tornou cada geração mais aquinhoada que suas predecessoras. Mas essas minorias partilhavam desses benefícios, por modesta que fosse sua forma, mediante a participação no processo produtivo – isto é, mediante a posse de empregos ou, como camponeses e artesãos, a capacidade de obter rendas vendendo sua produção no mercado. Para o camponês, a auto-suficiência se reduziu drasticamente no mundo desenvolvido.” (p. 44)
Nos países ricos, como os E.U.A., apenas 3% da população vive no campo, forçando os demais a engrossarem a massa de trabalhadores urbanos, muitos dos quais acabam por entrarem no mercado informal gerando – paradoxalmente – a carência de mão-de-obra para os setores formais – indústrias principalmente. Acresce-se a este contexto o incomensurável desenvolvimento de tecnologias capazes de substituir o trabalhador comum, e isso em uma sociedade pautada na concepção de trabalho como fator crucial da vida humana! Isso pode levar – e leva – a um considerável aumento da criminalidade. Para frear este processo, o Estado investe em políticas compensatórias, aumentando os impostos e sofrendo pressão dos setores industriais. Hobsbawm afirma que “[...] mesmo que admitamos que funciona bem e seja ampliado, é provável que o mecanismo, nas condições aqui consideradas, aumente e intensifique a desigualdade econômica e outras [...] Então, o que acontece? A hipótese tradicional de que o crescimento econômico, ainda que destrua parte do emprego, crie ainda mais empregos em outros lugares já não tem mais fundamento.” (p. 45)
A história nos ensina duas coisas básicas – no contexto acima explicitado: que o sistema se reorganiza e que não é possível controlar as massas de forma contínua e por tempo indeterminado. No tocante à primeira questão, é impossível retornar aos modelos político-econômicos anteriores – conforme defendem algumas concepções neo-românticas e saudosistas que afirmam o retorno a uma sociedade perfeita em padrões econômicos, políticos, morais, religiosos... Portanto, ao se organizar economicamente, o sistema cria mecanismos discursivos para manter-se hegemônico. Embora pareça contraditório é exatamente em concepções saudosistas e neo-românticas que se alicerçam para se legitimarem. Neste ponto entra – de forma explicita – a importância do historiador comprometido. Esta legitimação precisa do aval de historiadores que aceitam defendê-la, através da manipulação do passado e da subserviência à ideólogos. Em linhas gerais, o profissional da história deve buscar, mesmo que encontre resistência, erguer a venda que cobre os olhos do cidadão comum. No que concerne à segunda – onde fica mais explicita a concepção marxista do autor – é evidente que o operariado – ou os excluídos do sistema – não se organizará mais da mesma forma que nos períodos revolucionários, entre 1880 e 1960, mas não ficará emudecido por muito tempo. Estas são as principais contribuições da história para a sociedade contemporânea, pois ao elaborar uma dialética entre o passado e o presente o historiador pode alertar para as semelhanças e especificidades de modo a direcionar perspectivas – não fazer previsões escatológicas – para o desenrolar do processo civilizatório.
Referência
HOBSBAWM, Eric. O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea? IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 1998. p. 36 a 48.
O que a história tem a dizer sobre a sociedade contemporânea? Talvez a pergunta do autor deveria ser reformulada para: o que a história tem a nos dizer em uma sociedade contemporânea em constante mutação? Ou então, sob outro olhar: qual é a importância de conhecer o passado em uma sociedade que valoriza apenas o palpável gerador de lucros e divisas? São estas as questões que Hobsbawm se propõe a responde – ou não – neste artigo publicado inicialmente em 1984 e revisto para a republicação na obra “Sobre História”, em 1997. Mas é importante salientar – e fica claro no texto – que não se trata de uma autodefesa, mas sim uma análise sistemática e crítica sob a postura que os historiadores devem tomar em um contexto de crise – do Estado de Bem Estar Social – onde as orientações explicativas não surtem mais o efeito esperado – o que é totalmente discutível, visto que o autor defende uma postura analítica materialista e dialética, se opondo às correntes pós-estruturalistas fragmentárias ou oriundas da “Nova História” dos Annales.
Em primeiro lugar, qual é o sentido de registrar o passado? Até o processo de revolução produtiva, em meados do século XVIII, e desde o mundo clássico, a história foi entendida como a “mestra da vida”. Heródoto assim a chamara. Santo Agostinho e Thomas de Aquino não fugiram desta concepção – embora o enfoque religioso fosse predominante. Os próprios renascentistas assim a entendiam, seguidos pelos românticos e alguns positivistas. Mas a partir da formação de sociedades industriais, as inovações foram muito mais marcantes do que as continuidades – salvo algumas exceções políticas como o Líbano. Isso não quer dizer que não ocorreram rupturas no período pré-revolução industrial e muito menos que o “homo” moderno é mais desenvolvido mentalmente que o das sociedades antigas ou de caçadores-coletores. O período é consideravelmente curto para mudanças fisiológicas de caráter genético e/ou evolutivo – embora o homem de hoje, devido à alimentação, é notadamente mais alto e pesado. Cada geração, principalmente nos últimos 50 anos, trás consigo um elemento novo, uma moda, um estilo – rock, punks, skinnheads, nerds, emos... – e sem dúvidas essas rupturas são mais visíveis para olhos desatentos do que as permanências, as estruturas.
Para Hobsbawm, o historiador deve ser generalista e, ao mesmo tempo, estar atento às especificidades. São a experiência e a sensibilidade histórica as principais contribuições da história para o mundo atual. O desenvolvimento de tecnologias, cada vez mais avançadas, fez com que o ser humano buscasse respostas para seus problemas em programas de computação – reais ou ideais. Este sistema indiscutivelmente trouxe avanço em ciências exatas ou naturais, mas no tocante as humanas – políticas e sociais – os estragos podem ser incalculáveis. Porém ainda é utilizado por servir aos interesses de grupos dominantes que preferem um sistema cego e irracionalista a um inteligível. Um exemplo interessante negado por quase todos os economistas liberais, é o dos ciclos econômicos de longa duração – de crescimento e recessão – de Kondratiev, os quais são aceitos por quase todos os historiadores da vertente marxista. Segundo este sistema cíclico, o capitalismo passa por fases intermitentes de expansão de mercados – 20 a 30 anos – sucedida por recessão e reorganização do sistema – de período semelhante. Foi desta forma que os historiadores puderam afirmar a eminência da crise do petróleo, que levou o Estado do Bem Estar Social à ruína.
Outra característica dos “Kondratievs” é que cada um tem divergências gritantes tanto com seu antecessor quanto com seu sucessor – o que se evidencia na seqüência “liberalismo-Keyenasianismo-neoliberalismo”. O período em questão – a sociedade contemporânea – apresenta características específicas no próprio sistema de produção, conforme salienta Hobsbawm, “durante a maior parte da história, o mecanismo básico para o crescimento econômico foi a apropriação do excedente social gerado pela capacidade do homem de produzir por meio de um outro tipo de minoria para fins de investimento em melhoria condicional, ainda que nem sempre assim utilizado. O crescimento operava por meio da desigualdade. Então, até agora, isso foi compensado até certo ponto pelo enorme crescimento da riqueza total que, como mostrou Adam Smith, tornou até mesmo o trabalhador em economias desenvolvidas materialmente melhor que o cacique pele-vermelha, e que, em geral, tornou cada geração mais aquinhoada que suas predecessoras. Mas essas minorias partilhavam desses benefícios, por modesta que fosse sua forma, mediante a participação no processo produtivo – isto é, mediante a posse de empregos ou, como camponeses e artesãos, a capacidade de obter rendas vendendo sua produção no mercado. Para o camponês, a auto-suficiência se reduziu drasticamente no mundo desenvolvido.” (p. 44)
Nos países ricos, como os E.U.A., apenas 3% da população vive no campo, forçando os demais a engrossarem a massa de trabalhadores urbanos, muitos dos quais acabam por entrarem no mercado informal gerando – paradoxalmente – a carência de mão-de-obra para os setores formais – indústrias principalmente. Acresce-se a este contexto o incomensurável desenvolvimento de tecnologias capazes de substituir o trabalhador comum, e isso em uma sociedade pautada na concepção de trabalho como fator crucial da vida humana! Isso pode levar – e leva – a um considerável aumento da criminalidade. Para frear este processo, o Estado investe em políticas compensatórias, aumentando os impostos e sofrendo pressão dos setores industriais. Hobsbawm afirma que “[...] mesmo que admitamos que funciona bem e seja ampliado, é provável que o mecanismo, nas condições aqui consideradas, aumente e intensifique a desigualdade econômica e outras [...] Então, o que acontece? A hipótese tradicional de que o crescimento econômico, ainda que destrua parte do emprego, crie ainda mais empregos em outros lugares já não tem mais fundamento.” (p. 45)
A história nos ensina duas coisas básicas – no contexto acima explicitado: que o sistema se reorganiza e que não é possível controlar as massas de forma contínua e por tempo indeterminado. No tocante à primeira questão, é impossível retornar aos modelos político-econômicos anteriores – conforme defendem algumas concepções neo-românticas e saudosistas que afirmam o retorno a uma sociedade perfeita em padrões econômicos, políticos, morais, religiosos... Portanto, ao se organizar economicamente, o sistema cria mecanismos discursivos para manter-se hegemônico. Embora pareça contraditório é exatamente em concepções saudosistas e neo-românticas que se alicerçam para se legitimarem. Neste ponto entra – de forma explicita – a importância do historiador comprometido. Esta legitimação precisa do aval de historiadores que aceitam defendê-la, através da manipulação do passado e da subserviência à ideólogos. Em linhas gerais, o profissional da história deve buscar, mesmo que encontre resistência, erguer a venda que cobre os olhos do cidadão comum. No que concerne à segunda – onde fica mais explicita a concepção marxista do autor – é evidente que o operariado – ou os excluídos do sistema – não se organizará mais da mesma forma que nos períodos revolucionários, entre 1880 e 1960, mas não ficará emudecido por muito tempo. Estas são as principais contribuições da história para a sociedade contemporânea, pois ao elaborar uma dialética entre o passado e o presente o historiador pode alertar para as semelhanças e especificidades de modo a direcionar perspectivas – não fazer previsões escatológicas – para o desenrolar do processo civilizatório.
Referência
HOBSBAWM, Eric. O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea? IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 1998. p. 36 a 48.