Loiva Otero Félix é professora jubilada da Universidade Federal do Rio Grande de Sul (UFRGS) e Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atua principalmente com os temas ‘coronelismo’, ‘borgismo’ e ‘cooptação política’. No período de publicação do presente artigo era professora titular do Mestrado em História da Universidade de Passo Fundo, ministrando as disciplinas de ‘Metodologia da Pesquisa Histórica’, ‘Relações de Poder, Pensamento e Cultura Política’, ‘Política, Representação e Região’, ‘Política, Região e Poder’ e Relações de Poder no RS Republicano’.
A presente coletânea tem por objetivo responder a alguns dos questionamentos mais freqüentes sobre a temática da memória, seus usos e metodologias, que permeiam o universo acadêmico, com ênfase nas reflexões dos estudantes dos cursos de mestrado em educação e história da Universidade de Passo Fundo, da qual todos os autores são docentes. Na esteira desta problemática, a professora Félix preocupa-se em: (a) fazer uma análise de conjuntura sobre o atual momento por que passa a prática historiográfica, elencando alguns dos fatores que possibilitaram a emersão de temáticas relacionadas à memória; (b) traçar um breve histórico sobre os usos políticos da memória e a influência do contexto político no ato de rememorar; e (c) salientar que a manuseio de ‘memórias’ não implica apenas no lembrado, no narrado, mas também no esquecido, no reprimido, no silenciado. Desta forma, seu texto está dividido em três subcapítulos – cada qual referente a uma das preocupações elucidadas.
Na primeira parte do artigo, intitulada ‘A explosão do tema da memória. Moda?’, a historiadora esboça o quadro intelectual contemporâneo. Salienta que é impraticável pensar a atual valorização da memória sem suas interconexões com o contexto coetâneo e suas demandas específicas. Nas décadas finais do século XX se desestruturaram as últimas balizas do paradigma moderno do progresso – e mesmo o do socialismo, com a queda da URSS – e, à jusante deste processo de crise valorativa, se desenvolve uma nova atitude cultural. Conceitos estanques e totalizantes (sociedade, civilização, Estado, povo) perdem poder de influência e há um redirecionamento do olhar acadêmico – das ciências humanas e sociais – para o sujeito (indivíduo) e suas especificidades (dilemas, medos, rupturas, múltiplas temporalidades, representações...), aspectos até então marginais na prática historiográfica. Conforme a autora: "Essa crise entre os modelos de compreensão e explicação de mundo balizados pela razão, enquanto elemento central da explicação de mundo em contraposição ao universo religioso e escatológico, e aqueles de negação da razão [...], ao explodir, fez entrar em choque dois mundos [moderno e posmoderno] [...] e criou não só percepções novas, mas também, necessidades novas, e nestas se localiza a emergência da memória, razão pela qual é fundamental entendermos a contextualização em que se desencadeiam e onde se localiza a temática de memória e as relações com os outros temas que compõem o mesmo universo de rupturas." (p. 17)
Concomitante a esse processo – ou mesmo conjugado a ele – se percebeu uma substancial aceleração da vida cotidiana, onde os valores e símbolos são ressemantizados ou mesmo superados em uma velocidade até então nunca vista. A sensação de ‘presente contínuo’ (sem significação profunda) proporcionou a emersão de um sentimento de vazio, de perda de referências. É nesse processo que se enfatiza a ação da memória, pois é por meio de seu(s) uso(s) que os indivíduos conseguem estabelecer relações com o passado, sentimentos de identidade, (res)significando o presente, criando ‘lugares de memória’ (NORA, 1993).
Concomitante a esse processo – ou mesmo conjugado a ele – se percebeu uma substancial aceleração da vida cotidiana, onde os valores e símbolos são ressemantizados ou mesmo superados em uma velocidade até então nunca vista. A sensação de ‘presente contínuo’ (sem significação profunda) proporcionou a emersão de um sentimento de vazio, de perda de referências. É nesse processo que se enfatiza a ação da memória, pois é por meio de seu(s) uso(s) que os indivíduos conseguem estabelecer relações com o passado, sentimentos de identidade, (res)significando o presente, criando ‘lugares de memória’ (NORA, 1993).
No segundo momento (‘A questão da memória: o lembrar como ato social e político’) a autora faz referência aos usos políticos da memória, categoria esta que pode ser subdividida em três esferas interligadas: (a) ‘memórias individuais’, que tratam das experiências do sujeito, só têm importância para a história quando constituída enquanto instrumento de análise heurística no processo de identificação e representação de/com o ‘lugar’ e em relação com o ‘outro’; (b) ‘memórias coletivas ou sociais’, entendidas como redes interligadas de lembranças e significações comuns (ou aproximadas) de um determinado grupo em um determinado tempo e espaço; e (c) ‘memórias nacionais ou oficiais’, que tratam dos símbolos que formam o amálgama da ‘identidade’ de um povo com um Estado ou sistema político, podendo ser representado através da encarnação do ‘espírito da nação’ em um herói ou ícone religioso. Este último item têm sido utilizado e apresentado das mais variadas maneiras pelos grupos dominantes (a autora cita como exemplos Tiradentes e a Revolta Farroupilha).
No tocante às ‘memórias coletivas ou sociais’, fica evidenciado a nova abordagem historiográfica – fruto do processo de crise do paradigma moderno –, pois privilegia – ao passo que transcende à noção de Estado e território nacional – grupos até então marginalizados. Além disso, novas formas de memória foram incorporadas ao instrumental metodológico da disciplina histórica. Formas estas que a frieza dos documentos não deixa transparecer. Entretanto, conforme a autora, a construção das evidências não deve ser pautada apenas no que foi lembrado no momento da enunciação, mas, sim, deve levar em consideração as lacunas do discurso. Concernente ao ‘lembrado’ – e enunciado – é importante ater-se ao fato de sua intencionalidade, sua pluralidade temporal e sua representação/valoração coetânea.
O ‘esquecimento’ é o tema central da terceira parte do artigo, intitulada ‘Os significados sociopolíticos do esquecimento e dos silêncios nas memórias sociais’. O conceito de ‘esquecimento’ poderia ser suplantado pelo de ‘não-dito’, seja por sua aparente insignificância para o contexto, sua desconectividade com o discurso enunciado, seja pelas feridas ainda abertas que podem ser ainda mais escancaradas pelo ato de rememorar. À esse não-lembrado é utilizado o termo ‘zonas de sombras’ (POLLACK, 1989). Conforme FÉLIX, existem três tipos de memórias não-ditas: (a) as ‘memórias subterrâneas’, que se trata de um "[...] tipo de memória que não foi apagado do seu grupo social, mas submetido a um tipo de ‘esquecimento’, em geral um silenciamento auto-imposto como regra de sobrevivência para um tempo do ajuste dos ciclos e dos tempos históricos, mas, em nenhum momento, de supressão de lembranças." (p. 33); (b) as ‘memórias reprimidas’, que permeiam, normalmente, o universo mental dos grupos derrotados, nos quais o ato de lembrar pode trazer um sentimento de perda (dor) muito grande que é preferível ‘esquecer’; e (c) as ‘memórias silenciadas’, de grupos ou indivíduos que convivem entre os vencedores, mas que foram derrotados no processo de disputa pela memória.
À guisa de conclusão, a autora infere que os temas relacionados à memória, embora sejam frutos da demanda conjuntural contemporânea, não são meros modismos acadêmicos. Questiona a ênfase dada ao microestrutural, o que pode fazer com que as memórias locais tornem-se um amontoado insosso de depoimentos sem vínculos com o contexto e salienta, em concordância com TEDESCO (1999), que é preciso criar metodologias que interrelacionem o micro com o macroestrutural, para dessa forma compreender a construção das identidades e das alteridades na relação do ‘eu’ com o ‘outro’ e com o ‘espaço'.
Referência
FÉLIX, Loiva Otero. Política, memória e esquecimento. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de Memórias. Passo Fundo, RS: UPF, 2002 (p. 15 a 39).
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