HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Considerações sobre a Fabricação de Luis XIV de Peter Burke

O historiador Peter Burke é um dos mais bem conceituados pesquisadores das ciências sociais da contemporaneidade. Sua vasta obra transita entre a “história cultural” e a “história social” – lembrado que estas disciplinas históricas não são excludentes entre si e que sua divisão é muito mais didático-metodológica do que prática. Atua como docente na Universidade de Cambridge, com a disciplina de “História da Cultura”. Diferentemente de outros historiadores ingleses – como Thompson, Hobsbawm, Anderson, Hill – não é marxista (neo-marxista), mas pode ser definido como adepto da “Escola de Annales” – daí vem seu particular interesse pela retórica e processos de significação, como fica evidenciado na obra resenhada. Além de “A Fabricação do Rei” são de sua autoria as seguintes obras: “História e Teoria Social”, “A Escola dos Annales”, “O que é História Cultural?”, “Uma História Social da Mídia” (em parceria com Asa Briggs), entre outros. Percebe-se, em toda a obra de Burke, uma preocupação para a compreensão de como os objetos discursivos foram desenvolvidos, modelados, manipulados, aceitos, rejeitados... nos processos de significação. Em linhas gerais, como se desenvolveu o processo de aquisição de conceitos – permanências e continuidades – no âmbito da manipulação política de discursos e imagens.

Na obra “A Fabricação do Rei” o autor elucida – de modo absorvente – a construção simbólica do Rei Sol, a “máquina” de propaganda desenvolvida pelos acessores e ministros do monarca francês que reinou de 1643 a 1715. Ressalta o importante papel desempenhado por artistas e literatos. As manipulações do passado. Em síntese, apresenta o “Estado de espetáculo” da monarquia francesa do Antigo Regime e a construção da imagem real de um monarca lembrado até nossos dias como o “mais absoluto dos reis absolutistas” e autor de frases de impacto, dentre as mais conhecidas “O Estado sou Eu”. Embora esta expressão não mereça os exageros e devaneios que inspirou é importante para compreender a sociedade francesa do período e sua organização político-social. Vigorava no período – em quase todo o mundo ocidental – a Teoria do Direito Divino dos Reis, que tem como principal difusor o padre Jacques Bossuet – panigenista de Luis XIV. Esta concepção de Estado e poder afirmava que o direito de governar era dado por deus, não cabendo contestação. Mas é interessante perceber como o discursso cristão – direito divino – era associado ao discursso pagão – rei “Sol” – para a legitimação do monarca. Era comum nas sociedades pré-cristãs ou orientais a associação do poder com os astros – é verificado no Japão, no Peru, no Egito... – mas em uma sociedade cristã conservadora é um item de fato interessante, pois representava uma analogia direta: a impossibilidade de outra ordem. Conforme salienta Burke, a “[...] conexão entre a realeza, a divindade e o sol. O recurso à mesma imagem de poder em culturas tão diferentes não deveria nos surpreender. A identificação implícita entre a ordem política e a ordem cósmica é um exemplo clássico de legitimação de determinado conjunto de acordos institucionais através de sua apresentação como natural, de fato, como o único sistema possível.” (p. 209)

Contribuiu muito para a busca – constante – pela legitimação de Luis XIV o fato de ser ele de uma família que havia pouco estava no poder (nem um século). Era apenas a terceira geração Bourbon, sendo precedido apenas por Henrique IV e Luis XIII. Ou seja, era uma linhagem ainda não-incrustada no imaginário coletivo, como o era, por exemplo, os Habsburgo.

Luis XIV não foi pioneiro, mas sintetizou e aprofundou o que seus precedentes fizeram servindo de exemplo para chefes de Estados posteriores. É interessante perceber que na abordagem de Burke, o principal regime ou sistema que se norteou no Rei Sol foi – paradoxalmente – o soviético. Este paradoxo parece maior ainda ao lembrarmos que as Resoluções Russas derrubaram um regime monárquico absolutista: o dos czares. O regime soviético tinha por objetivo criar uma nova sociedade, fora da lógica capitalista, para isso precisou desenvolver toda uma simbologia – e manipulá-la – para se fazer presente, da mesma forma que os propagandistas franceses do século XVII. Além da URSS, em outros países também o legado do Rei Sol se fazem perceber. À Luis serviam uma gama de pessoas que zelavam sua imagem, organizando eventos e orientando o monarca. Os políticos atuais se servem de marqueteiros, muitos dos quais com empresas especializadas na “fabricação” da imagem ideal para maior receptividade e aceitação do público. Mas não podemos cometer anacronismos. A construção da imagem hoje tem por objetivo convencer as massas populares. Partindo da noção de que todo poder emana do povo, este precisa aceitar o governante (legitimidade igual à governalidade). No caso de Luis XIV, a concepção vigente era que seu poder tinha origem divina. Não era preciso convencer portanto! Era importante evitar hostilidade, utilizando-se da criação de uma imagem real teatralizada de benevolência e amabilidade, ou – entre os críticos – de usurpação e mau-caratismo.

“As idéias do século XVII sobre a relação entre arte e poder podem ser dispostas ao longo de um espectro. De um lado havia os escritores que pareciam conferir à imagem real seu valor nominal, fossem eles poetas a escrever odes ao rei, historiadores a narrar suas vitórias ou eruditos a descrever as decorações de Versailles. Descreviam estátuas e outros monumentos como meios para “instruir o povo”, incentivando-o a amar seu príncipe e obedecer-lhe. [...] do lado oposto havia os observadores, moralistas e satiristas, que viam a glorificação do rei, essencialmente, como uma peça pregada ao público por bajuladores cínicos e oportunistas.” (p. 17)

Os referenciais de Luis XIV são das mais variadas origens. Podemos destacar, além dos antigos – clássicos – (Davi, César, Augusto, Alexandre e Constantino) e dos medievos (Clóvis, Carlos Magno e São Luis – Luis IX), seu avô (Henrique IV), seu pai (Luis XIII) e seu tio e sogro (Filipe IV, rei da Espanha). Otávio Augusto e Luis XIV possuem semelhanças e diferenças gritantes. Ambos eram representados como deuses da mitologia greco-romana – embora os mecanismos de absorção dos significados em relação aos significantes, em períodos tão distantes de tempo, são muito diferentes. No tocante as diferenças da “máquina” de propaganda – o termo “propaganda” é recente, em séculos anteriores era associado à idéia de propagação da fé – Augusto sempre era retratado jovem, austero, enquanto Luis se permitiu envelhecer em seus retratos. Os reis francos, citados acima, eram de vital importância para a legitimação do poder do rei. Clóvis o primeiro monarca cristão e Carlos Magno, elevado a “Imperador do Império Romano” em 800 pelo próprio papa. Ser comparado ou mesmo associado a um destes reis medievais visava criar um sentimento de continuidade. O mesmo pode ser aferido à São Luís. Essa associação era ainda mais necessária se lembrarmos que o avô de Luis XIV, Henrique IV, tornou-se católico apenas para ser coroado, até então era líder huguenote. Não era o herdeiro legitimo, foi indicado por Henrique III para dar fim a uma guerra – a Guerra dos Três Henriques. Em suma: associar Luis XIV a reis que expandiram o cristianismo e a própria “França” era uma necessidade. Estava além de vaidades senis. Antes dele seu pai e avô já o haviam feito, investindo em artistas (cantores, dançarinos, músicos, pintores, escultores, arquitetos, etc.).

A época áurea da imagem de Luis XIV data da primeira metade de seu reinado. Podemos utilizar como marco divisor – Burke não o faz explicitamente – e Revogação do Édito do Nantes, com o qual estava proibida a liberdade de culto. A revogação foi – como tudo nas ações do “Rei Sol” – um ato encenado e esperado – mesmo pelos huguenotes –, conforme salienta o autor: “Quando a noticia do édito real finalmente chegou, foi reportada com poucos comentários. Em números subseqüentes [do Jornal Mercure Galant], porém, concedeu-se grande espaço a poemas que congratulavam o rei pela destruição da ‘insolente’ heresia [...]” (p. 215)

Não só a imagem real ficou prejudicada – embora o grande esforço dos jesuítas em engrandecê-la amenizou a situação – como também a economia. Uma sociedade estritamente camponesa – rural – em que as poucas atividades comerciais e manufatureiras eram exercidas por protestantes que viam na França um refúgio seguro contra as perseguições religiosas em países católicos e não-católicos, perder este segmento social era altamente prejudicial, levando o país a uma crise econômica sem precedentes, desembocando na Revolução Francesa de 1789. A Revogação contribuiu para que o pensamento de críticos de Luis XIV, que antes viviam ofuscados pelas vitoriosas campanhas (publicitária e militar propriamente) do monarca. Muitos destes, oriundos da própria França e expulsos pelas perseguições, se refugiaram em países como a Holanda, a Suíça, a Inglaterra e vários territórios germânicos, engrossando a oposição ao “Rei Sol”.

O vinculo de Luis XIV com artistas e literatos era calcado em uma estrutura pensada por umas poucas pessoas influentes da elite francesa. Para atrair essas pessoas várias “academias” foram fundadas – de pintura, escultura, poética... – e, além disso, muitos recebiam do monarca uma pensão – para alguns ainda definiu-se que esta deveria ser vitalícia. Os artistas não eram obrigados a glorificar Luis, mas tinham compreensão – devido à advertência de ministros – de que devê-lo-iam fazer. Concursos eram realizados para eleger o melhor panegírico ao monarca, ou o melhor retrato, ou o melhor projeto de monumento que representasse o rei, etc. Neste interím um novo conceito se faz importante: o de “Pseudo-evento” extraído da obra de Boorstin, conforme Burke “[...] Boorstin afirma que o que chama de “revolução gráfica” do final do século XIX e inicio do século XIX (graças a impressão a vapor, à fotografia, etc.) levou à ascensão do que ele chama de “pseudo- evento”, um termo cujos significado são desde um acontecimento encenado para efeitos da mídia a um que é noticiado antes de ter lugar.” (p. 210). Um exemplo de pseudo-evento verificado na representação de Luis XIV é a obra “Luis XIV visita a Academia de Ciêncais”, de Le Clerc (p. 66). Esta pintura tinha o objetivo de apresentar o rei como protetor e difusor das ciências. A visita nunca ocorreu.

Independentemente de ter havido visita ou não à Academia de Ciências o que realmente importava era se o epíteto de “protetor” surtiria efeito. Para tal os propagandistas se utilizaram de uma concepção retórica de verdade, advindo da Roma Antiga: o de “veritas”. Para a legitimação do poder e da imagem de poder não importava o fato ocorrido – ou não ocorrido – em si, mas as suas representações. Deste modo o tempo também força à recriações, reinterpretações, ou mesmo supressões. Eventos antes comemorados, no correr dos anos passam a ser evitados. Em um “Estado de teatro” em crise – principalmente após a Revogação do Édito do Nantes – a ausência de grandes feitos forçava a elevação de pequenos. Regiões periféricas eram “obrigadas a fazer manifestações espontâneas” para a glória de Luis, como a “campanha das Estátuas”. Mesmo que a morte do rei tinha sido recebida com mais alivio do que dor, é indiscutível que sua imagem – símbolo – influenciou monarcas e chefes de Estado que o seguiram, não só na França. Os propagandistas do Rei Sol queriam tocar as almas. Tocaram. Até mesmo seus críticos admitem a perspicácia e a grandiosidade da imagem de Luis XIV, embora não do pessoa por traz do “Rei Sol”.


Referência

BURKE, Peter. A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

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