HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A relação entre história, memória e identidade na perspectiva de Astor Diehl

O professor Astor Antônio Diehl possui graduação em Estudos Sociais pela PUC-RS, graduação em História Licenciatura Plena pela PUC-RS, especialização em História do Brasil pela PUC-RS, mestrado em História do Brasil pela PUC-RS e doutorado em Teoria, Metodologia e Didática da História pela Ruhr Universitat Bochum. Atualmente é docente do mestrado em Educação da UPF, membro de corpo editorial da Revista Eletrônica da ANPUH/RS e membro de corpo editorial da Revista Câmbios Históricos. É autor, coautor ou organizador de mais de cinquenta livros, além de vários artigos publicados em revistas científicas. Dentre suas obras podemos destacar ‘A cultura historiográfica nos anos 80: mudança estrutural na matriz historiográfica brasileira’, ‘Matrizes da cultura histórica brasileira. Do crescente progresso otimista à crise da razão histórica – uma introdução’, ‘Vinho Velho em Pipa Nova (o pós-moderno e o fim da história)’, ‘A cultura historiográfica brasileira (do IHGB aos anos 1930)’, ‘A Cultura Historiográfica Brasileira (década de 1930 aos anos 1970)’, ‘Cultura Historiográfica: memória, identidade e narrativa’, entre outras.

O artigo presente tem como proposta a análise e o apontamento de perspectivas para os temas relacionados à memória e às identidades, sob o viés da reinterpretação dos conceitos de tempo, espaço e movimento. Preocupa-se em apresentar um texto que proporcione a iminência das novas possibilidades historiográficas alicerçadas por um método hermenêutico de pesquisa. Subdivido em cinco parte – Memórias, história e contemporaneidade, Memória e história, Memória: crise e narração histórica, Memória e narrativa historiográfica e Identidade como chave da contemporaneidade – o artigo aborda alguns dos condicionantes para a emersão das preocupações acerca da temática da memória e das identidades, além de promove-las a um patamar que fica, indubitavelmente, acima da noção de exotismo ou folclore: podem ser a base para a compreensão dos processos históricos que o paradigma dominante até então não dava conta de explicar. De acordo com Diehl, "Para a história, não são as memórias e identidades os pontos centrais, mas as suas respectivas representações nas experiências e expectativas de vida. São exatamente essas representações os elementos da compensação do déficit de critérios iluministas no mundo cultural, cujo processo de rememorização é trazido na ressubjetivação e repoetização de sentidos culturais do passado." (p. 144)

Na primeira parte do artigo, Diehl aponta que os conceitos chaves da perspectiva histórica de origem iluminista (tempo, espaço e movimento) foram superados pelas novas demandas sociais. O tempo – compreendido como linear –, o espaço – enquanto o que está dado geograficamente – e o movimento – ideal de progresso como meio e fim em si – passam a ter conotações existenciais, precipuamente no que concerne aos processos de (res)significação e (re)valorização das práticas culturais. À jusante desse pensamento, o estudo da memória e das identidades deve estar interligado à esse tripé, ou seja, buscar na memória não apenas vestígios do passado, mas a dinâmica dos processos e ressemantização e ressignificação decorrentes do tempo que separa o momento da evocação do objeto rememorado, e, na identidade não apenas características que figuram como normativas na noção de nação ou nacionalidade, mas em suas especificidades regionais e territoriais, dimensionadas simbolicamente por grupos e em grupos sociais.
O historiador salienta que é imprescindível, para o fazer historiográfico, diferenciar memórias de lembranças. Essa, na perspectiva da disciplina histórica, é composta por um amontoado de restos, vestígios, imagens desfocadas, de um passado desconexo com um contexto mais amplo. "Lembranças são localizadas no passado de forma estática, são elementos intransparentes, individuais e que perdem gradativamente seus pontos de referência no tênue horizonte entre o passado e o presente." (p. 146). Por sua vez, a memória é contextualizável e se faz na relação com a temporalidade perpassada pela experiência. Constitui-se como uma fonte consistente de imagens sobre o passado, revela formas de fazer, de pensar, de viver. Entretanto, o ato de rememorar pode – e é comum que o faça – poetizar o passado, torna-lo mais agradável, mais digerível. Na esteira dessa dinâmica muitos fatos são subscritos, se constituindo – e não raro cristalizando – como silêncios no discurso da rememoração. O historiador deve estar atento à esses silêncios: eles também fazem parte da memória, também são contextualizáveis.
A ênfase da segunda parte do texto é atribuída Às possibilidades da memória enquanto fonte do trabalho historiográfico. Entretanto, segundo o autor, ela deve passar, assim como os demais tipos de documentos utilizados pelo historiador por uma crítica das fontes. Diehl classifica essas críticas em duas esferas parcialmente interligadas: a teorização e a metodização. A teorização consistir-se-ia em uma argumentação, pautada por critérios de cientificidade, que contextualize e problematize o discurso rememorado, assim como seu enunciador, conferindo-lhe, desse modo, plausibilidade científica. Já metodizar refere-se a desenvolver regras de pesquisa que possibilite uma relativa padronização dos critérios visando objetividade explicativa – entretanto relativa, pois o discurso da memória se constitui nas trocas de experiências entre seres humanos em uma dimensão social. Esse processo teórico, de acordo com Diehl, garante à memória e à identidade a condição de fonte de pesquisa historiográfica. Nas palavras do autor, "Sob a rubrica metodizar estão expostas as possibilidades de a memória ser fonte de experiência, de continuidade/ruptura, de identidade, de sentido e de comunicação. Com essas possibilidades, a memória adquire qualidade em, pelo menos, quatro níveis como consciência histórica, como argumento, como explicação histórica e como narrativa." (p. 150)

O terceiro período textual é marcado pela preocupação em apresentar o contexto de crise da perspectiva tradicional da historiografia, além de diferenciar experiência e vivência. Para o autor, as novas possibilidades para a disciplina histórica – mais especificamente para a inclusão da memória e da identidade como fontes de pesquisa com plausibilidade científica – se dão pelo estudo da memória sob o viés das experiências (caracterizada pela sociabilidade comunitária) e não das vivências (relações a-históricas, ou seja, sem um vínculo específico com um contexto). Essa análise é prolongada para o quarto subtexto, onde, para além da diferenciação entre vivência e experiência, Diehl propõem que as narrativas acerca das experiências podem se desenvolver em quatro esferas (constelações), que demonstram estratégias de significação do tempo passado e formas distintas de compreender o tempo histórico enquanto locus dessas experiências.
Segundo o professor, a Constelação narrativa tradicional entende o tempo como linear, ou pelo menos, com um sentido imutável. Busca explicitar a genealogia de algumas durações e, mesmo, de algumas mudanças. A Constelação narrativa exemplar, é caracterizada pela valorização de regras gerais, que evidenciam práticas culturais ou modos de sociabilidade e identidades. Neste caso o tempo tem sentido de especialidade (dominar as regras e ser reconhecido enquanto membro de um grupo em questão). A Constelação narrativa crítica entende o tempo histórico enquanto ruptura, pois, ao elaborar sua narrativa, o sujeito questiona algumas concepções predeterminadas, assim como conceitos estanques e cristalizados. Por fim, na Constelação narrativa genérica o tempo histórico narrado é o do próprio presente. As mudanças são encarados num sentido de desenvolvimento. Os fatores exógenos são compreendidos como propiciadores de progresso e de melhoria das condições de vida.
A quinta parte do artigo é marcada pela reiteração das defesas prognosticas nos capítulos anteriores. Para o autor, o método moderno de pesquisa histórica tradicional ruiu, pois não comporta mais as demandas inerentes do tempo presente. Para reavivar a disciplina histórica propõem uma reinterpretação dos conceitos de tempo, espaço e movimento, os quais serão panos de fundo – e objetivos centrais – para as análises das memórias e das identidades. Entretanto, o autor não concorda com as perspectivas pós-modernas; defende, sim, uma nova perspectiva ainda moderna. O método hermenêutico proposto por Diehl não é desprovido de base teórica, pelo contrário, está alicerçado em critérios que, se não garantem, asseguram certa plausibilidade científica para a disciplina histórica – não mais ciência. Seriam eles: a crítica exaustiva das fontes de memória (iconográfica, oral, audiovisual...), a definição de critérios que ‘padronizem’ a análise sobre estas fontes, a contextualização do discurso e de seu enunciador e a fundamentação teórica.

Referência

DIEHL, Astor Antônio. Memória e Identidade: perspectiva para a história. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de Memórias. Passo Fundo, RS: UPF, 2002. (p. 141 a 160)

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