HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

História e Contemporaneidade: imbricações sob o olhar de Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende “[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história.” (p.8). Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.

O que a história tem a dizer sobre a sociedade contemporânea? Talvez a pergunta do autor deveria ser reformulada para: o que a história tem a nos dizer em uma sociedade contemporânea em constante mutação? Ou então, sob outro olhar: qual é a importância de conhecer o passado em uma sociedade que valoriza apenas o palpável gerador de lucros e divisas? São estas as questões que Hobsbawm se propõe a responde – ou não – neste artigo publicado inicialmente em 1984 e revisto para a republicação na obra “Sobre História”, em 1997. Mas é importante salientar – e fica claro no texto – que não se trata de uma autodefesa, mas sim uma análise sistemática e crítica sob a postura que os historiadores devem tomar em um contexto de crise – do Estado de Bem Estar Social – onde as orientações explicativas não surtem mais o efeito esperado – o que é totalmente discutível, visto que o autor defende uma postura analítica materialista e dialética, se opondo às correntes pós-estruturalistas fragmentárias ou oriundas da “Nova História” dos Annales.

Em primeiro lugar, qual é o sentido de registrar o passado? Até o processo de revolução produtiva, em meados do século XVIII, e desde o mundo clássico, a história foi entendida como a “mestra da vida”. Heródoto assim a chamara. Santo Agostinho e Thomas de Aquino não fugiram desta concepção – embora o enfoque religioso fosse predominante. Os próprios renascentistas assim a entendiam, seguidos pelos românticos e alguns positivistas. Mas a partir da formação de sociedades industriais, as inovações foram muito mais marcantes do que as continuidades – salvo algumas exceções políticas como o Líbano. Isso não quer dizer que não ocorreram rupturas no período pré-revolução industrial e muito menos que o “homo” moderno é mais desenvolvido mentalmente que o das sociedades antigas ou de caçadores-coletores. O período é consideravelmente curto para mudanças fisiológicas de caráter genético e/ou evolutivo – embora o homem de hoje, devido à alimentação, é notadamente mais alto e pesado. Cada geração, principalmente nos últimos 50 anos, trás consigo um elemento novo, uma moda, um estilo – rock, punks, skinnheads, nerds, emos... – e sem dúvidas essas rupturas são mais visíveis para olhos desatentos do que as permanências, as estruturas.

Para Hobsbawm, o historiador deve ser generalista e, ao mesmo tempo, estar atento às especificidades. São a experiência e a sensibilidade histórica as principais contribuições da história para o mundo atual. O desenvolvimento de tecnologias, cada vez mais avançadas, fez com que o ser humano buscasse respostas para seus problemas em programas de computação – reais ou ideais. Este sistema indiscutivelmente trouxe avanço em ciências exatas ou naturais, mas no tocante as humanas – políticas e sociais – os estragos podem ser incalculáveis. Porém ainda é utilizado por servir aos interesses de grupos dominantes que preferem um sistema cego e irracionalista a um inteligível. Um exemplo interessante negado por quase todos os economistas liberais, é o dos ciclos econômicos de longa duração – de crescimento e recessão – de Kondratiev, os quais são aceitos por quase todos os historiadores da vertente marxista. Segundo este sistema cíclico, o capitalismo passa por fases intermitentes de expansão de mercados – 20 a 30 anos – sucedida por recessão e reorganização do sistema – de período semelhante. Foi desta forma que os historiadores puderam afirmar a eminência da crise do petróleo, que levou o Estado do Bem Estar Social à ruína.

Outra característica dos “Kondratievs” é que cada um tem divergências gritantes tanto com seu antecessor quanto com seu sucessor – o que se evidencia na seqüência “liberalismo-Keyenasianismo-neoliberalismo”. O período em questão – a sociedade contemporânea – apresenta características específicas no próprio sistema de produção, conforme salienta Hobsbawm, “durante a maior parte da história, o mecanismo básico para o crescimento econômico foi a apropriação do excedente social gerado pela capacidade do homem de produzir por meio de um outro tipo de minoria para fins de investimento em melhoria condicional, ainda que nem sempre assim utilizado. O crescimento operava por meio da desigualdade. Então, até agora, isso foi compensado até certo ponto pelo enorme crescimento da riqueza total que, como mostrou Adam Smith, tornou até mesmo o trabalhador em economias desenvolvidas materialmente melhor que o cacique pele-vermelha, e que, em geral, tornou cada geração mais aquinhoada que suas predecessoras. Mas essas minorias partilhavam desses benefícios, por modesta que fosse sua forma, mediante a participação no processo produtivo – isto é, mediante a posse de empregos ou, como camponeses e artesãos, a capacidade de obter rendas vendendo sua produção no mercado. Para o camponês, a auto-suficiência se reduziu drasticamente no mundo desenvolvido.” (p. 44)

Nos países ricos, como os E.U.A., apenas 3% da população vive no campo, forçando os demais a engrossarem a massa de trabalhadores urbanos, muitos dos quais acabam por entrarem no mercado informal gerando – paradoxalmente – a carência de mão-de-obra para os setores formais – indústrias principalmente. Acresce-se a este contexto o incomensurável desenvolvimento de tecnologias capazes de substituir o trabalhador comum, e isso em uma sociedade pautada na concepção de trabalho como fator crucial da vida humana! Isso pode levar – e leva – a um considerável aumento da criminalidade. Para frear este processo, o Estado investe em políticas compensatórias, aumentando os impostos e sofrendo pressão dos setores industriais. Hobsbawm afirma que “[...] mesmo que admitamos que funciona bem e seja ampliado, é provável que o mecanismo, nas condições aqui consideradas, aumente e intensifique a desigualdade econômica e outras [...] Então, o que acontece? A hipótese tradicional de que o crescimento econômico, ainda que destrua parte do emprego, crie ainda mais empregos em outros lugares já não tem mais fundamento.” (p. 45)

A história nos ensina duas coisas básicas – no contexto acima explicitado: que o sistema se reorganiza e que não é possível controlar as massas de forma contínua e por tempo indeterminado. No tocante à primeira questão, é impossível retornar aos modelos político-econômicos anteriores – conforme defendem algumas concepções neo-românticas e saudosistas que afirmam o retorno a uma sociedade perfeita em padrões econômicos, políticos, morais, religiosos... Portanto, ao se organizar economicamente, o sistema cria mecanismos discursivos para manter-se hegemônico. Embora pareça contraditório é exatamente em concepções saudosistas e neo-românticas que se alicerçam para se legitimarem. Neste ponto entra – de forma explicita – a importância do historiador comprometido. Esta legitimação precisa do aval de historiadores que aceitam defendê-la, através da manipulação do passado e da subserviência à ideólogos. Em linhas gerais, o profissional da história deve buscar, mesmo que encontre resistência, erguer a venda que cobre os olhos do cidadão comum. No que concerne à segunda – onde fica mais explicita a concepção marxista do autor – é evidente que o operariado – ou os excluídos do sistema – não se organizará mais da mesma forma que nos períodos revolucionários, entre 1880 e 1960, mas não ficará emudecido por muito tempo. Estas são as principais contribuições da história para a sociedade contemporânea, pois ao elaborar uma dialética entre o passado e o presente o historiador pode alertar para as semelhanças e especificidades de modo a direcionar perspectivas – não fazer previsões escatológicas – para o desenrolar do processo civilizatório.

Referência

HOBSBAWM, Eric. O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea? IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 1998. p. 36 a 48.

Hobsbawm e a História do Tempo Presente

Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende “[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história.” (p.8). Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.

Hobsbawm é muito conhecido como um marxista engajado e estudioso do século XIX. Sua trilogia sobre este período é leitura obrigatória para qualquer acadêmico de história. Porém nos últimos anos tem se preocupado com outra concepção historiográfica: a do tempo presente, ou melhor, “a do seu próprio tempo.” A primeira publicação deste artigo, em 1993, foi concomitante com sua obra “Era dos Extremos – o breve século XX.” A partir das experiências adquiridas neste trabalho argumenta questões pertinentes para todo o pesquisador-historiador que queira escrever sobre seu próprio tempo. Existem, segundo o autor, três questões importantes a ser ressaltadas: as concepções históricas das diferentes gerações, mesmo que estas orbitem em torno de um mesmo paradigma; como a passagem dos anos e os acontecimentos histórico e pessoais interferem na mudança da ótica na relação passado-presente; e, como o historiador – que é essencialmente um intelectual – pode ser influenciado pelos conceitos e pré-conceitos de seu período histórico e de sua sociedade. Em primeiro lugar é preciso ter claro que toda a produção historiográfica diz muito mais sobre o contexto em que é produzida do que sobre o seu objeto de estudo – isso já é consenso mesmo entre posturas paradigmáticas oponentes. Mas muito diferente do que escrever história de períodos passados influenciados por concepções contemporâneas é escrever a história de seu próprio tempo incorrendo no risco de cometer anacronismos e ser alvo de críticas de historiadores futuros que discordem de suas afirmações possivelmente superficiais.

A forma de olhar acontecimentos passados varia conforme a idade e a experiência do historiador. Um historiador que – em idade adulta – viveu o período da queda da URSS verá este fato de uma maneira diferente do que um jovem historiador ainda criança ou mesmo não nascido no período. Porém Hobsbawm salienta que não significa que só um historiador experiente pode chegar à conclusões que se aproximam mais do espírito de época coletiva, mas sim que o jovem precisa de um esforço muito maior, de um poder de imaginação, de sensibilidade, e de uma excelente pesquisa para tal. O experiente tem uma gama de vantagens, mas a mais importante é a de saber, sem ter que buscar fontes alheias, o quanto as coisas mudaram, o quanto o mundo se transformou nos últimos cinqüenta ou sessenta anos – isso, para um historiador do tempo presente faz muita diferença. Conforme o autor “aqueles que têm idade o bastante para se lembrarem não se fiam nessas mudanças. Sabem, como muitos jovens historiadores não conseguem saber sem um esforço especial, que ‘o passado é outro país. Lá eles fazem as coisas de modo diferente’. Isso pode ter uma relação direta com nosso juízo tanto sobre o passado quanto sobre o presente. [...] Na medida em que o começo da compreensão histórica é uma apreciação da alteridade do passado, e o pior pecado dos historiadores é o anacronismo, dispomos [experientes historiadores] de uma vantagem inerente para compensar muitas de nossas desvantagens “. (p. 248)

A segunda questão – de como o “andar da história” interfere na forma de olhar para ela própria – pode surpreender até mesmo os mais experientes e atentos historiadores. Para exemplificar esta questão o autor expõe sua própria experiência. Em princípios da década de 1990, ao iniciar o processo de produção da obra “Era dos Extremos: o breve século XX” – que é uma “história do tempo” em que o autor viveu/vive – optara por dividir o século em dois momentos distintos, um iniciando em 1914 e encerrando em 1945 e o outro de 1645 à 1990-1. Podemos perceber que o primeiro momento é de crise – guerras mundiais, epidemias, grande depressão, holocausto, regimes totalitários... – e o segundo o oposto – de ascensão desenvolvimento do capitalismo liberal, a “época de ouro”... Porém, devido aos acontecimentos de 1991 e a manutenção do “estado de crise” oriundo da crise de 1973 – do petróleo – o cenário que se abria não era dos mais promissores. O próprio autor já havia salientado sobre este cenário em meados dos anos 1970 com base nos “ciclos de longa duração de Kondratiev”. A nova perspectiva que se vislumbrava apontava que não era mais possível um díptico para o século XX, se fazia necessário um tríptico, ou – conforme o autor – um sanduíche, ou seja, uma era de “progresso”, desenvolvimento capitalista, expansão de mercados... entre 1645 e 1973, separando dois momentos de crise importantes para o sistema capitalista e para a sociedade ocidental. Em linhas gerais poderíamos afirmar que um historiador que escreveu sobre o século XX na década de 1970 o viu – e fez – diferente de um contemporâneo nosso. Isso se explica porque o tempo corrente – suas rupturas e continuidades – alteram as lentes – conforme Spencer – com as quais o cientista “do passado” – que é na verdade um cientista do presente – observa seu objeto de estudo.

O último item problemático citado por Hobsbawm tem relação com o engajamento político e com pressupostos comuns – inseridos em um contexto social – perspectiveis para olhares desatentos. Ainda concernente à esta questão, Hobsbawm afirma que os consensos, os modismos teórico-metodológicos, nas ciências – principalmente as sociais – agravam esta problemática. Em relação à questão do engajamento e dos pressupostos generalizantes podemos usar como exemplo a postura historiográfica de um americano que tenha servido seu exército na Guerra do Golfo. Ao retratar este conflito suas experiências pessoais se farão presentes e é possível que seu relato se torne anacrônico ao tentar justificar o conflito com argumentos políticos baseados em discursos e em notícias manipuladas. Outro exemplo que poderia ser utilizado é o de um militar brasileiro que, durante o período do Regime militar serviu o exército e produziu uma obra historiográfica sobre o período – caso do general Golbery de Couto e Silva. Concernente aos modismos e consensos, a preocupação de Hobsbawm e ambígua: em primeiro lugar critica os modismos que geram consensos universais e repudiam posições contrárias fechando-se em uma espécie de irracionalismo e, em segundo, defende alguns consensos que não poderiam ser questionados por modismos motivados por objetivos políticos. Fica evidenciada a crítica de Hobsbawm à escola pós-moderna e ademais acerca da primeira questão não precisa ser ressaltado. No segundo defende que alguns fatos não podem ser questionados enquanto fato, mas sim seus usos e abusos políticos – o holocausto é um dos principais exemplos. Permanecendo na questão dos consensos, o autor lança uma nova problemática. Critica a divisão binária do século XX – “comunismo” e capitalismo, conforme é consensual –, mas salienta que “[...] estamos mais uma vez a mercê do tempo. Se hoje é possível pelo menos abandonar o padrão dos opostos binários mutuamente exclusivos, ainda não se tem nenhuma clareza sobre qual das alternativas concebíveis pode ser substituído de modo mais proveitoso. Mais uma vez, devemos deixar que o século XXI tome suas próprias divisões.” (p. 253).

É possível perceber que o autor adverte sobre as problemáticas e armadilhas da prática historiográfica do presente – ou do tempo vivido – e, concomitantemente, instiga o historiador a praticá-la. É indubitavelmente um campo de estudos inesgotável, muito pouco pode ser previsto, “[...] a experiência fundamental de todos que viveram grande parte deste século é erro e surpresa. O que aconteceu foi, quase sempre, totalmente inesperado. Todos nós nos equivocamos mais de uma vez em nossas avaliações e expectativas.” (p. 254). É se desgarrando de consensos universalistas e do senso comum que o historiador pode perceber as rupturas e continuidade de seu próprio período histórico.

Referência

HOBSBAWM, Eric. O Presente como História. IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 543 à 255.

Implicações do Engajamento Político na Produção Historiográfica: uma análise do pensamento de Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende “[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história.” (p.8). Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.

Neste capítulo – artigo – Hobsbawm toca em um ponto gerador de conflitos entre os cientistas: o engajamento político e conexões ciência-política. O posicionamento do autor é evidenciado na parte final de seu texto (parte III). Contrário às extravagâncias políticas – e a-políticas. Marxista, como se afirma, defende que o engajamento é importante para o desenvolvimento da ciência, enquanto introduz novos objetos, temáticas, analogias e aproxima-a de outras, na chamada interdisciplinaridade. Neste sentido historiadores engajados com alguma causa qualquer podem proporcionar novos debates, novas redes de interligações, novas abordagens e mesmo novos objetos que não eram contemplados por conveniência ideológica da vertente dominante ou mesmo por desatenção da comunidade cientifica. E no atual contexto, em que as preocupações e atenções recaem sobre os métodos de pesquisa – se desviando do objeto pesquisado em si – é comum que as ciências se voltem para dentro de seu seio, com trabalhos cada vez mais complexos e concomitantemente, mais desvinculados do real. De modo que “[...] nas ciências sociais, e provavelmente em todas as ciências nos quais se vislumbram implicações para a sociedade humana (que talvez não sejam meramente tecnológicas), “externos” são, em grande parte, e de fato primordialmente, a experiência, as idéias e a atividade de cientista como pessoa e como cidadão, como filho de seu tempo. E os cientistas engajados são aqueles que mais tendem a usar sua experiência “externa” no trabalho acadêmico.” (p. 150)

A expressão engajamento possui amplo sentido semântico – assim como todas as palavras que, além de seus significado etimológico, foram utilizado por grupos políticos e/ou críticos destes. Em um conceito mais brando pode significar que nenhum conhecimento científico é isento de influências político-ideológicas – o que é amplamente aceito por todas as áreas do conhecimento. Deste tipo de “engajamento” pouco precisa elucidar, visto o consenso existente. Porém, em outro aspecto, significa que todos os procedimentos de pesquisa, discurso, seleção... estão subordinados às afeições políticas do cientista. Um exemplo contemporâneo deste “tipo” de engajamento é o discurso nacionalista de sionistas que alicerçam seu direito a um Estado Nacional Judeu nos crimes cometidos pelos nazistas durante o Holocausto. Esse conceito de “pesquisador engajado” deixa a entender que o cientista é alguém compromissado com uma ideologia política e o seu trabalho deve ser utilizado na articulação da defesa desta – mesmo que isso o leve a contradições gritantes como o que ocorreu durante o período stalinista na URSS, onde toda a pesquisa ficava subordinada a liames políticos e deveria ser utilizada para cientificizá-los.

Individualmente o cientista – em nosso caso especifico o historiador – é fruto da sociedade em que vive e que, portanto, porta em seu subconsciente os conceitos e pré-conceitos desta. Mas, ao vincular explicitamente seu trabalho a agentes e pensamentos políticos pode incorrer, para justificar sua teoria, na negação e falseabilização de dados e fatos – como o fazem os cientistas vinculados ao islamismo, ao negarem o holocausto e a considerarem invencionice de judeus para justificar a opressão ante palestinos no processo, ainda em curso, de formação do Estado de Israel. Segundo Hobsbawm, os conceitos e fatos devem passar por critérios de falseabilidade, para que sejam aceitos enquanto fatos, ou seja, definir “o que foi, do que não foi assim”. Todo fato é por essência neutro – é uma evidência. O historiador “sério” não pode negar a evidência, mas pode – e deve – questionar os desdobramentos destas e como são utilizadas em discursos histórico-políticos. Em linhas gerais, não se pode cientificamente questionar a existência do holocausto na Alemanha Nazista – quem o faz não o faz cientificamente – mas é passível de indagação os atributos políticos que este trágico acontecimento da história humana recebeu de grupos opostos. Ou ainda, usando um exemplo do autor: “Não pode haver nenhuma dúvida legítima de que no curso dos últimos duzentos anos, melhoraram substancialmente, na média, as condições materiais da população nos países “avançados” do mundo. O fato não pode ser seriamente questionado, embora se possa discutir sobre quando essa melhoria começau, e sobre a velocidade, flutuações e divergências desse processo.” (p. 141). Ou seja, o fato em si não é carregado de ideologias, mas as redes de relação que se estabeleceram ligando-o com outros fatos – anteriores e posteriores – em construções historiográficas dependem da ideologia do historiador.

O engajamento político exacerbado possibilitou o surgimento de aberrações políticas irracionalistas justificadas por certa concepção de passado. Usando um exemplo conhecido: a doutrina nazista tomava como fonte de reivindicação argumentos de pseudo-historiadores que defendiam – advocacia histórica – que a Alemanha deveria reconquistar um território que no período medieval lhe havia pertencido, durante o chamado I Reich. O mais absurdo é que, politicamente, não existia Alemanha até 1871! Mas o discurso engajado desses cientistas proporcionou as condições para que o pensamento nazista ganhasse força e justificação. Fazendo uso de um exemplo contemporâneo: a ampla aceitação, por parte da população dos Estados Unidos da América, no tocante às intervenções militares deste país em territórios alheios sob o pretexto de levar a democracia para populações dominadas por um tirano e/ou ditador como as do Iraque e do Afeganistão, ou mesmo da Venezuela, de Cuba (embora nestes não houvesse intervenção armada). Isso também só é possível pois existe, na academia norte-americana, um grande número de cientistas engajados com a ideologia dominante, a qual possui como principal carros-chefes o Estado e o governo daquele país.

Hobsbawm, para elucidar o engajamento político desviado da cientificidade, faz uso de um exemplo que merece atenção: a ciência da cartografia. Aparentemente pode não haver possibilidade de que as orientações políticas de um geógrafo interfiram nos traços de um mapa, mas, ao definir espaços territoriais litigiosos como pertencentes à um país – que não seja de acordo com convenção internacional ou por coerção – está evidenciando seu posicionamento. Por exemplo, ao manter a região do Kosovo como província sérvia está agindo muito mais como político do que como geógrafo. Conforme o autor “é tão absurdo transformar países em não-países nos mapas quanto transformar pessoas em não-pessoas nos livros de história.” (p. 144). O mesmo pode se aplicar à região do Caxemira, pois, ao defini-la enquanto pertencente ao Paquistão, negamos o direito indiano sobre a região. Para esta defesa, os políticos e historiadores recorreram à “zona da advocacia política”, que toma como pressupostos acontecimentos do passado que tiveram grande influência na vida social de suas sociedades. É importantíssimo lembrar que na advocacia o que importa são os argumentos discursivos de convencimento, não sendo muito relevante a diferenciação entre fato e ficção. No que concerne ao Brasil, isso pode ser aplicado à região amazônica, pois, ao representá-la – em uma mapa escolar – como uma “área internacional” se induz, na mente dos jovens estudantes, a negação da soberania brasileira sobre aquela região.

É evidente que algumas teorias políticas busquem argumentos científicos para sua legitimação – o caso mais evidente é o do “socialismo cientifico” – porém é preciso ter clareza que existem diretrizes – funções e trabalhos – que as separam (ciência e política). Portanto, não há sustentação – nem mesmo teórica, quiçá prática – para a afirmação que todo evento político deve ter um equivalente discursivo na ciência. No caso da URSS, o segundo deveria estar submisso ao primeiro, supondo deste modo “[...] (1) uma congruência total entre as declarações políticas e cientificas em todos os momentos, e por isso (2) uma intercambiabilidade virtual das declarações em ambas as formas de discurso em todos os níveis, com a justificativa (3) de que não existia nenhum campo do discurso cientifico ou público especializado para tais discursos. Na prática, isso significava (4) a superioridade da autoridade política [...] em relação à proposição cientifica.” (p. 143). É preciso salientar que pode haver uma congruência teórica entre esses dois campos de atividade humana (ciência e política), porém torná-los um só e corresponde a um erro anacrônico, pois deste modo a ciência se vê privada de uma de suas principais funções sociais: o de elaborar uma crítica – construtiva ou não – que visa proporcionar à qualquer organização sócio-política um projeto de auto-superação.

Mas o que seria das ciências – principalmente as que estudam (explicam) as sociedades humanas – sem o engajamento político de seus principais teóricos? A sociologia, por exemplo, surgiu enquanto disciplina cientifica devido aos interesses de seus propositores – sejam eles positivistas, marxistas ou compreensistas. A própria história não foge desse contexto. Então podemos afirmar que o engajamento não é de todo prejudicial ao desenvolvimento das ciências. Pelo contrário, instiga o seu desenvolvimento com a introdução de novos conceitos – que muitas vezes não são novos, mas sim advindo de outras disciplinas – que incrementam o debate. Segundo Hobsbawm, a atual conjuntura necessita de cientistas engajados. O caso da história é exemplar: as novas tendências historiográficas têm conduzido à disciplina à olhar para “dentro”, ou seja, a discutir conceitos e metodologias em textos cada vez mais técnicos e complexos, saturados de metáforas como a do “rio da história”, presentes nas obras de François Hortog e Durval Muniz de Albuquerque Junior, o que leva o historiador a, cada vez mais, se desligar da realidade ou a negligenciar alguns aspectos destas. É neste ponto que se torna importantíssima a atuação do historiador engajado, pois este transita entre o debate metodológico-conceitual e a realidade social, evitando desta forma o auto-isolamento da academia.

Referência

HOBSBAWM, Eric. Engajamento. IN: HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 138 à 154.

Menocchio, o Queijo e os Vermes

Resenha de O Queijo e os Vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição de Carlo Ginzburg.
O que salta os olhos na obra do italiano – que fora professor na Califórnia e em Pisa – Carlo Ginzburg? Indubitavelmente é a tenaz perspicácia com que busca pistas/dicas sobre o seu objeto de estudo. O autor de “O queijo e os Vermes” e de “História Noturna” não se permite a um fácil enquadramento teórico metodológico. Faz uso de expressões marxistas – granscianas – como a de “classe subalterna”, conforme argumenta: “uso a expressão [...] ‘classes subalternas’ por ser suficientemente ampla e despida das conotações paternalistas de que está inbuída ‘classes inferiores’.” (p. 199) Concomitante aceita questões e abordagens do chamado “paradigma pós-moderno” – conforme classificação de Cardoso (1995) – como a noção de mentalidade, discurso, retórica... Trata-se de desenvolver uma história que resista aos ataques de pós-estruturalismo ao mesmo tempo em que “se vê” isenta do domínio fechado de ortodoxias paradigmáticas. Nesta perspectiva o historiador já produziu – para além das duas obras citadas acima – “O Fio e os Rastros”, “Mitos, Emblemas e Sinais: morfologia e história”, “Os Andarilhos do Bem: Feiticeiros e Cultos agrários nos séculos XVI e XVII”, entre outros. É perceptível que o objeto de estudo, no qual é especialista, é a Europa pré-industrial, ou, de forma mais especifica, a cultura popular – das classes subalternas portanto – da Europa pré-urbanização. É no tocante ao objeto de estudo que a complexidade da obra de Ginzburg se faz perceptível: como encontrar vestígios de uma cultura baseada apenas na oralidade, ou seja, na transmissão continuada de valores e conceitos de geração para geração, sem que neste processo ocorresse o registro, ou, quando este ocorria, era feito pela elite letrada, distorcendo os sentidos originais? Impossível encontrar – elaborar – uma resposta indelével, mas a afirmativa do autor pode clarear esta nebulosa perspectiva: “[no caso especifico da obra] As raízes de suas afirmações e desejos estão fincadas muito longe num estrato obscuro, quase indecifrável, de remotas tradições camponesas.” (p. 23). E continua, de forma generalizante: “Respeitar o resíduo de indesifrabilidade que há nela e que resiste a qualquer analise não significa ceder ao fascínio idiota do exótico e do incompreensível significa apenas levar em consideração uma mutilação histórica da qual, em certo sentido, nós mesmos somos vítimas.” (p.26)

Olhos atentos revelam um inusitado no que concerne à prefaciação: as diferenças gritantes entre os prefácios às edições inglesa e italiana. No texto “à inglesa” o autor, em poucas linhas e palavras fáceis, se preocupa basicamente em apresentar a obra – como “nasceu” a pesquisa, apresentar a personagem, etc. –, ressaltando um único conceito adotado – o da “circularidade”, advindo de Mikhail Bakhtin – sem refutar outras teorias e perspectivas. O mesmo não ocorre no texto em que dedicou à edição italiana. Neste o autor se preocupou com teorias, perspectivas, obras anteriores, desafios da pesquisa histórica e da produção historiográfica, etc. Salientou a importância para a disciplina/ciência histórica da incorporação de conceitos oriundos de outras áreas – antropologia, sociologia... –, principalmente o de “cultura popular”. Afirma que deste modo “[...] foi superada, pelo menos verbalmente, não só a concepção antiquada de folclore como mera coleção de curiosidades, mas também a posição de quem distinguia nas idéias, crenças, visões de mundo das classes subalternas nada mais do que um acúmulo inorgânico de fragmentos de idéias, crenças, visões de mundo elaboradas pelas classes dominantes provavelmente vários séculos antes. A essa altura começa a discussão sobre a relação entre cultura das classes subalternas e das classes dominantes.” (p. 12).

Percebe-se que desta forma Ginzburg se aproxima da noção de circularidade de Bakthin, expressa na obra “A cultura popular na Idade Médica e no Renascimento”, negando a concepção de que a cultura popular é um emarranhado de associações feitas por populares com base na cultura dominante, ou ainda, um mecanismo da cultura dominante para disseminar práticas e hábitos entre os populares. Mantendo assim o seu domínio, como se vê expresso na obra, de Robert Mondrou “De la cultuire populaire aux 17 et 18 sie siécles é la bibliothique bleue de Troyes (1964). Nega também um outro pólo – defendido por Genoviève Bollème , na obra “Représentation religiouse et thèmes d’epérance dans la ‘Biblioteque Bleu’; litterature populaire em France du XVII aux XIX siècle” (1973), é importante salientar que mesmo se utilizando em algumas metodologias pós-modernas, o autor também a nega enquanto paradigma histórico, critica Foucalt com a expressão “o que interessa sobretudo a Foucalt são os gestos e os critérios da exclusão; os exclusos, um pocuo menos. [...] A essas alturas o ambicioso projeto foucaltiano de uma ‘arqueologia do silêncio’ transformou-se em silêncio puro e simples – por vezes acompanhado de um muda contemplação estetizante.” (p. 16). É sem dúvidas um historiador da história cultutal – ou das mentalidades, ou das idéias – que busca ler os documentos “à contra-pêlo” buscando pistas que o possibilite à análise da cultura das “classes subalternas”.

A personagem central da obra é um moleiro chamado Domenico Scandella, mais conhecido como Monocchio. Figura singular. Produto de seu período histórico e suas especificidades. Era o século XVI. A Igreja Católica perdia o monopólio da salvação das almas para igrejas oriundas da “Reforma” – luterana, anglicana e calvinista – e intensifica a repressão nos territórios em que mantém seu domínio. A elite letrada – grande maioria formada por clérigos – perde o monopólio do saber para a imprensa, após a invenção da prensa por Guttenberg. Monocchio era um popular com uma considerável vantagem sobre os demais: sabia ler, escrever e contar. Isso, para o século em questão, era muito raro entre os camponeses – até mesmo entre os senhores. Esta habilidade proporcionou ao moleiro (que trabalha com moinho) o acesso à varias obras religiosas – as quais eram as mais publicadas pelos autores humanistas, mesmo estas sendo constantes no Index. Este acesso à obras literárias e religiosas – provavelmente até o Alcorão – aponta ao fato de que Monocchio tinha contato com a cultura dominante, entretanto, suas afirmações e teorizações revelam a existência de uma gama de conceitos pré-textuais que orientavam a leitura e a abstração do que era lido. Uma espécie de “chave de leitura”. “Confrontando, uma por uma, as passagens dos livros por ele citados com as conclusões às quais chegava [...], nos vemos às voltas, invariavelmente, com lacunas e deformações, às vezes profundas. [...] Mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave de sua leitura, a rede que Monocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras, que exagerava o significado de uma palavra, isolando-a do contexto, que agia sobre a memória de Monocchio deformando sua leitura. Essa rede, essa chave de leitura, remete continuamente a uma cultura diversa da registrada na página impressa: uma cultura oral.” (p. 72). A personagem representa, portanto, não uma cultura camponesa autônoma ou uma simples aceitação passiva de conceitos impostos; mas sim a constante interação entre os universos mentais e culturais das elites e das baixas camadas, conforme é apresentado na teoria de Bakthin.

Uma indagação importante é a de como um moleiro pobre pode – naquele contexto histórico – ter acesso à esta literatura? Ginzburg ensaia uma resposta, afirmando que provavelmente existia na Itália de então uma considerável rede de leitores (nobres, clérigos e alguns populares). Isso pôde ser abstraído de algumas afirmações de Monocchio durante um processo inquisitorial, nos quais salientou que conseguia os livros através de contatos – alguns deles membros da Igreja. No que concerne às teorias – ou a eclesiologia – do moleiro friulano a abordagem se torna mais subjetiva. Existe uma mescla de princípios luteranos, anabatistas e da mitologia camponesa. A empiricidade de suas afirmativas se faz notável. A idéia de um mundo que teve na putrefação sua gênese e a subseqüente associação do mundo à um queijo – que após qualhar “dá origem à vermes” (noção comum no período de que os seres viventes eram oriundos de naturezas inanimadas). Esta característica do pensamento desenvolvido por Monocchio é fruto do cotidiano, dos hábitos e práticas, numa tentativa de racionalizar o mundo – sua origem – e torná-la palatável. Concomitante à defesa desta gênese – na qual deus também surgiu da putrefação (era um dos vermes) – defendia uma “reforma” nas práticas eclesiásticas uma igreja: mais simples, não pautada na ornamentação e na concentração de recursos capitais, “a exigência de uma Igreja que abandonasse seus privilégios, que se fizesse pobre com os pobres, ligava-se à formulação, na esteira dos Evangelhos, de um conceito diferente de religião, livre de exigências dogmáticas, resumível a um núcleo de preceitos básicos [...]” (p. 41). Essa proposta – no mínimo reformista – defendida e difundida por Monocchio não era tolerada pela Igreja da Contra-Reforma. É provável que em outro contexto o moleiro receberia uma punição mais branda – embora provavelmente não teria tido oportunidades para desenvolver tal eclesiologia. Em linhas gerais, a Reforma possibilitou à Monocchio a coragem e a imprensa os argumentos para falar. A Contra-Reforma o levou para a fogueira por falar demais.

É possível perceber na obra de Carlo Ginzburg a preocupação em não limitar o texto à personagem. Todo um cenário contextual é montado e “palpável” ao leitor. O período era de crise e efervescência. Crise de uma sociedade que tentava manter características feudais em uma Itália tomada pelas cidades e pelo comércio. Efervescência de idéias – a Reforma, o Renascimento, os árabes... “O queijo e os vermes” contribui para a desconstrução de mitos antigos, construídos pela historiografia tradicional, entre eles o da homogeneidade e cumplicidade entre os membros da(s) classe(s) dominante(s). Ao elucidar um cenário de disputas de poder Ginzburg salienta as disputas e a rivalidade entre as elites de Veneza e do Friuli e de como a primeira buscava se aproximar dos camponeses do Friuli para lhes dar apoio em ataques e boicotes. Reforçando deste modo as afirmações de Bakthin sobre as relações entre as classes e a circularidade entre as culturas destas. No tocante às classes subalternas também não existia homogeneidade. Devido à cultura extremamente religiosa muitas funções, profissões, ou mesmo hábitos, tornava uma pessoa indígena ou indesejada. E o moleiro era uma destas pessoas, conforme o poema de André de Bergamo – muito popular no período – “um verdadeiro moleiro é meio luterano”, ou ainda neste canto popular da Toscana: “Fui até o inferno e vi o Anticristo / [...] pela barba um moleiro segurava / e tinha um alemão por sob os pés / e um taverneiro e um magarefe pressos: / lhe perguntei qual era o mais malvado / e ele me disse: ‘Atenta que eu te mostro. / Vê bem quem é que com as mãos rapina: / o moleiro que mói a alva farinha. / Vê bem quem é que com as mãos agarra: / o moleiro que mói a farinha alva. / Da quarta parte salta o alqueire inteiro: / o mais ladrão de todos é o moleiro’”. (p. 181). Provavelmente este imaginário pesou para as denúncias e a subseqüente condenação do Monocchio – sendo o moleiro quem descontava o fisco, atraia a ira dos camponeses pobres.

Monocchio foi uma figura ímpar. Membro de uma cultura oral hoje destruída e irresgatável em sua totalidade. É um grito silencioso pela vontade e direito de falar – embora não conseguiu expor seu pensamento a um papa, um rei ou príncipe, conforme era seu desejo. Encontrou nos atentos inquisitores uma platéia receptiva, interessada, em seu pensamento. É um predecessor da liberdade de expressão pois queria falar, mas manter-se vivo, conforme atestavam as duas cartas enviadas aos inquisitores nos dois processos em que esteve envolvido. Mesmo condenado – no primeiro processo – a viver conforme as leis da Igreja, portando sempre um sambenito, não pôde conter seu ímpeto investigativo, voltando a ser processado... e queimado. Monocchio não representa a cultura popular. Nem a elítica. É como um antepassado perdido que vêm a nosso encontro. É a simbiose epistêmica da cultura popular com o das classes dominantes conforme defendem Ginzburg e Bakthin.

Referência

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

A memória e o 'esquecimento' sob o olhar de Loiva Félix

Loiva Otero Félix é professora jubilada da Universidade Federal do Rio Grande de Sul (UFRGS) e Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atua principalmente com os temas ‘coronelismo’, ‘borgismo’ e ‘cooptação política’. No período de publicação do presente artigo era professora titular do Mestrado em História da Universidade de Passo Fundo, ministrando as disciplinas de ‘Metodologia da Pesquisa Histórica’, ‘Relações de Poder, Pensamento e Cultura Política’, ‘Política, Representação e Região’, ‘Política, Região e Poder’ e Relações de Poder no RS Republicano’.
A presente coletânea tem por objetivo responder a alguns dos questionamentos mais freqüentes sobre a temática da memória, seus usos e metodologias, que permeiam o universo acadêmico, com ênfase nas reflexões dos estudantes dos cursos de mestrado em educação e história da Universidade de Passo Fundo, da qual todos os autores são docentes. Na esteira desta problemática, a professora Félix preocupa-se em: (a) fazer uma análise de conjuntura sobre o atual momento por que passa a prática historiográfica, elencando alguns dos fatores que possibilitaram a emersão de temáticas relacionadas à memória; (b) traçar um breve histórico sobre os usos políticos da memória e a influência do contexto político no ato de rememorar; e (c) salientar que a manuseio de ‘memórias’ não implica apenas no lembrado, no narrado, mas também no esquecido, no reprimido, no silenciado. Desta forma, seu texto está dividido em três subcapítulos – cada qual referente a uma das preocupações elucidadas.
Na primeira parte do artigo, intitulada ‘A explosão do tema da memória. Moda?’, a historiadora esboça o quadro intelectual contemporâneo. Salienta que é impraticável pensar a atual valorização da memória sem suas interconexões com o contexto coetâneo e suas demandas específicas. Nas décadas finais do século XX se desestruturaram as últimas balizas do paradigma moderno do progresso – e mesmo o do socialismo, com a queda da URSS – e, à jusante deste processo de crise valorativa, se desenvolve uma nova atitude cultural. Conceitos estanques e totalizantes (sociedade, civilização, Estado, povo) perdem poder de influência e há um redirecionamento do olhar acadêmico – das ciências humanas e sociais – para o sujeito (indivíduo) e suas especificidades (dilemas, medos, rupturas, múltiplas temporalidades, representações...), aspectos até então marginais na prática historiográfica. Conforme a autora: "Essa crise entre os modelos de compreensão e explicação de mundo balizados pela razão, enquanto elemento central da explicação de mundo em contraposição ao universo religioso e escatológico, e aqueles de negação da razão [...], ao explodir, fez entrar em choque dois mundos [moderno e posmoderno] [...] e criou não só percepções novas, mas também, necessidades novas, e nestas se localiza a emergência da memória, razão pela qual é fundamental entendermos a contextualização em que se desencadeiam e onde se localiza a temática de memória e as relações com os outros temas que compõem o mesmo universo de rupturas." (p. 17)

Concomitante a esse processo – ou mesmo conjugado a ele – se percebeu uma substancial aceleração da vida cotidiana, onde os valores e símbolos são ressemantizados ou mesmo superados em uma velocidade até então nunca vista. A sensação de ‘presente contínuo’ (sem significação profunda) proporcionou a emersão de um sentimento de vazio, de perda de referências. É nesse processo que se enfatiza a ação da memória, pois é por meio de seu(s) uso(s) que os indivíduos conseguem estabelecer relações com o passado, sentimentos de identidade, (res)significando o presente, criando ‘lugares de memória’ (NORA, 1993).
No segundo momento (‘A questão da memória: o lembrar como ato social e político’) a autora faz referência aos usos políticos da memória, categoria esta que pode ser subdividida em três esferas interligadas: (a) ‘memórias individuais’, que tratam das experiências do sujeito, só têm importância para a história quando constituída enquanto instrumento de análise heurística no processo de identificação e representação de/com o ‘lugar’ e em relação com o ‘outro’; (b) ‘memórias coletivas ou sociais’, entendidas como redes interligadas de lembranças e significações comuns (ou aproximadas) de um determinado grupo em um determinado tempo e espaço; e (c) ‘memórias nacionais ou oficiais’, que tratam dos símbolos que formam o amálgama da ‘identidade’ de um povo com um Estado ou sistema político, podendo ser representado através da encarnação do ‘espírito da nação’ em um herói ou ícone religioso. Este último item têm sido utilizado e apresentado das mais variadas maneiras pelos grupos dominantes (a autora cita como exemplos Tiradentes e a Revolta Farroupilha).
No tocante às ‘memórias coletivas ou sociais’, fica evidenciado a nova abordagem historiográfica – fruto do processo de crise do paradigma moderno –, pois privilegia – ao passo que transcende à noção de Estado e território nacional – grupos até então marginalizados. Além disso, novas formas de memória foram incorporadas ao instrumental metodológico da disciplina histórica. Formas estas que a frieza dos documentos não deixa transparecer. Entretanto, conforme a autora, a construção das evidências não deve ser pautada apenas no que foi lembrado no momento da enunciação, mas, sim, deve levar em consideração as lacunas do discurso. Concernente ao ‘lembrado’ – e enunciado – é importante ater-se ao fato de sua intencionalidade, sua pluralidade temporal e sua representação/valoração coetânea.
O ‘esquecimento’ é o tema central da terceira parte do artigo, intitulada ‘Os significados sociopolíticos do esquecimento e dos silêncios nas memórias sociais’. O conceito de ‘esquecimento’ poderia ser suplantado pelo de ‘não-dito’, seja por sua aparente insignificância para o contexto, sua desconectividade com o discurso enunciado, seja pelas feridas ainda abertas que podem ser ainda mais escancaradas pelo ato de rememorar. À esse não-lembrado é utilizado o termo ‘zonas de sombras’ (POLLACK, 1989). Conforme FÉLIX, existem três tipos de memórias não-ditas: (a) as ‘memórias subterrâneas’, que se trata de um "[...] tipo de memória que não foi apagado do seu grupo social, mas submetido a um tipo de ‘esquecimento’, em geral um silenciamento auto-imposto como regra de sobrevivência para um tempo do ajuste dos ciclos e dos tempos históricos, mas, em nenhum momento, de supressão de lembranças." (p. 33); (b) as ‘memórias reprimidas’, que permeiam, normalmente, o universo mental dos grupos derrotados, nos quais o ato de lembrar pode trazer um sentimento de perda (dor) muito grande que é preferível ‘esquecer’; e (c) as ‘memórias silenciadas’, de grupos ou indivíduos que convivem entre os vencedores, mas que foram derrotados no processo de disputa pela memória.

À guisa de conclusão, a autora infere que os temas relacionados à memória, embora sejam frutos da demanda conjuntural contemporânea, não são meros modismos acadêmicos. Questiona a ênfase dada ao microestrutural, o que pode fazer com que as memórias locais tornem-se um amontoado insosso de depoimentos sem vínculos com o contexto e salienta, em concordância com TEDESCO (1999), que é preciso criar metodologias que interrelacionem o micro com o macroestrutural, para dessa forma compreender a construção das identidades e das alteridades na relação do ‘eu’ com o ‘outro’ e com o ‘espaço'.

Referência

FÉLIX, Loiva Otero. Política, memória e esquecimento. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de Memórias. Passo Fundo, RS: UPF, 2002 (p. 15 a 39).

A nova história política deve ser uma história das relações de poder.

Resenha de História e Poder de Francisco Falcon.


Transitando entre a “História das Idéias” e a “Nova História Política”, Francisco Falcon produziu obras relacionadas às duas correntes historiográficas. Em verdade salienta uma intrínseca relação entre elas, diferenciando – não é regra – o enfoque e o objeto de estudo. Foi professor na UFF e na UFRJ, atualmente é professor titular e pesquisador de História Moderna pela PUC. Desenvolveu vasta obra entre as quais a de maior destaque é “A Época Pombalina” de 1982 pela editora Ática.

É quase unanimidade associar história política ao Positivismo. A ênfase desta perspectiva sociológica nos fatos, datas e grandes homens contribuiu muito para esta associação, porém há um considerável equívoco: o positivismo desenvolveu-se em meados do século XIX, já a história política tem suas origens na Idade Antiga. Durante o século XX muitas críticas foram elaboradas para este segmento historiográfico – chamado a partir de então de História Política Tradicional (o tradicional no sentido pejorativo, como o que não instiga ou desperta curiosidade). Chegou-se até a afirmar que a política era a-histórica e ligada apenas à questões de curto tempo, não chegando mesmo a ser conjuntural.

O autor elabora um breve histórico salientando como o Estado foi se apoderando da história política tradicional e passam a ser compreendida como a única instância possível de poder: “A promoção do Estado à condição de objeto por excelência da produção histórica significou a hegemonia da história política. Daí porque [...] o poder é sempre poder do Estado – instituições, aparelhos, dirigentes; os ‘acontecimentos’ são sempre eventos políticos, pois são estes os temas nobres e dignos da atenção dos historiadores.” (p. 65).

Na Grécia Antiga desenvolveu-se uma concepção de história – memória, ou “mestra da vida”, onde os grandes feitos deveriam receber uma narrativa especial, para serem sempre lembrados. Na Idade Média a história passou a ser associada a assuntos eclesiásticos, sendo que a Igreja reunia em suas mãos os poderes secular e espiritual. A historiografia humanista não alterou este quadro. Toda a política – e narrativa política – era influenciada por conceitos maquiavélicos. Nesta perspectiva o objetivo era criar um sentido nacional ressaltando a importância do Estado.
O movimento do Romantismo também se pautará neste pressuposto, principalmente nos Estados germânicos antes da unificação política alemã de 1871. É neste contexto que a história surge enquanto ciência moderna. Embora mantivesse a ênfase na política e no poder do Estado, neste período desenvolveu-se um processo de seleção crítica das fontes históricas: com o objetivo de descrever os fatos “tal qual eles aconteceram”, como na frase de Ranke, a disciplina histórica perdeu suas características românticas – de tentar reviver o passado – e ganhou conotação científica – uma cientificidade evidentemente influenciada pelo aparato do Estado - a “História metódica”. É neste período então que o Positivismo entra em cena na oficina da história.

Salienta-se que, embora sendo a perspectiva dominante, a história política tradicional não era unanimidade. Como exemplo a estas concepções diferenciadas destacam-se as obras de Tucídides, na Grécia Antiga, de “Santo” Agostinho na Idade Média e dos filósofos iluministas, que “[...] criticaram a natureza meramente descritiva, factual e essencialmente política das histórias eruditas, propondo como alternativa uma história filosófica – uma história racional e explicativa da totalidade do devir histórico – cujo núcleo seria dado por valores universais expressos através de conceitos como cultura, civilização, liberdade [...]” (p. 64). No século XIX e princípios do XX, estes movimentos alternativos ganharam força, mas não conseguiram abalar, neste período a História Política Tradicional, eram eles: o marxismo, o neo-historicismo e os “Annales”.

O neo-historicismo propôs a ampliação do objeto de estudo da história política e do poder. Introduziu como novos conceitos o psicologismo, as expressões no campo das idéias, as motivações de grupos e movimentos sociais... A perspectiva marxista estruturalista – acusava a história política tradicional de ser desvinculada da totalidade do processo histórico e, por isso mesmo, presa fácil da ideologia das elites dominantes no objetivo de manter-se no poder, e de deter um discurso narrativo, cronológico e linear empirista. Os marxistas chegaram a afirmar que os eventos políticos eram efeitos derivados das estruturas, em outras palavras, meros subprodutos. As primeiras gerações dos “Annales” condenaram a tradicional história política de ser extremamente factual e propuseram como objeto de estudo, o homem, ou melhor, a totalidade da ação humana no tempo histórico. Nesta perspectiva estruturalista, a história política foi relegada ao segundo plano – ou mesmo lhe foi extraída a cientificidade e a historicidade.

É deveras importante perceber que estes movimentos que criticavam as concepções de política e poder na historiografia, portavam consigo novas perspectivas, sobretudo no tocante ao poder, ou aos poderes como salientou Michael Foucault, na obra “Microfísica do Poder”. Concebe-se então, a partir de 1968-70 – o movimento hippie e o de “maio de 68” foram essenciais nesse processo – que o poder não é inerente ao Estado. Está presente em toda ação social e relação humana – de classe, de gênero, na família, na escola, na fábrica... Em decorrência da radical crítica a história tradicional, a própria noção de político e poder havia sido abandonada da historiografia do período de 1950-70! Só com esta nova concepção de poder político é que renasce o interesse por estes objetos históricos: a Nova História Política.

A construção – ainda em curso – deste novo movimento historiográfico deve-se a fatores históricos contemporâneos – como a massificação da informação e o monopólio desta pela mídia ideologicamente interessada em criar um tipo de comunidade de imaginação –, à revisão de conceitos epistemológicos – principalmente no que concerne a separar o político do factual – e a fatores disciplinares, ou melhor, interdisciplinares. Em relação a este último aspecto as opiniões de historiadores são divergentes. Enquanto Julliard – e o próprio Falcon como se permite perceber – defendem a aproximação da história com a antropologia, a sociologia e as ciências políticas. Mommsen ressalta que foram pouco frutíferas as experiências deste tipo. Segundo Falcon, na página 77, para que a nova história política se legitime é preciso evitar os erros da perspectiva tradicional, aproximar-se e conhecer os métodos de outras ciências sociais e redefinir alguns dos antigos objetos da tradicional história, mas, sobretudo propor novos, e mais modernos, objetos. Dentre os objetos destacam-se as propostas de Vandermeer e Julliard. O primeiro parece ainda preso a concepções mais conservadoras, enquanto o segundo sugere os sistemas, os agentes e a dinâmica política.

A construção do conhecimento histórico no Brasil também sofreu alterações. Durante o período militar, enquanto o Estado investia na pesquisa tradicional – percebe-se aí a influência do poder na historiografia – nas academias novas perspectivas tomavam corpo como forma de contestação ao regime instituído. É neste período que o marxismo – já presente em obras de Caio Prado Jr. – ganha espaço. Porém não devemos esquecer que a repressão governamental impediu que estes novos ventos historiográficos deslanchassem. Atualmente é notável a falta de cursos de pós-graduação em História Política. Porém, a temática política é uma das mais usuais. Existem resistências por parte de historiadores em aproximar-se das demais ciências sociais. Porém, como destaca Falcon, “[...] se tivermos presente o fato de que a renovação da história política em outros centros culturais passou e passa necessariamente pelo diálogo do historiador político com a sociologia, a antropologia e a ciência política; se lembrarmos também que essa renovação teria sido impensável sem a redefinição havida em função da problemática do poder, ficará evidente que, para detectarmos mudanças e inovações, é essencial sair do território do historiador tomado em seu sentido exclusivo. Caso contrário iremos encontrar apenas o velho recitativo que constitui a história política tradicional, tal como a definiram, e criticaram, os Annalistes.” (p. 88).

Referências

FALCON, Francisco. História e Poder. IN: CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da História: ensaios da teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

A história dos intelectuais: possibilidades e impossibilidades sob a ótica de Francisco Falcon

Transitando entre a “História das Idéias” e a “Nova História Política”, Francisco Falcon produziu obras relacionadas às duas correntes historiográficas. Em verdade salienta uma intrínseca relação entre elas, diferenciando – não é regra – o enfoque e o objeto de estudo. Foi professor na UFF e na UFRJ, atualmente é professor titular e pesquisador de História Moderna pela PUC. Desenvolveu vasta obra entre as quais a de maior destaque é “A Época Pombalina” de 1982 pela editora Ática.

Indubitavelmente as terminologias ‘idéias’ e ‘história’ são polissêmicas – uma gama inumerável de movimentos aponta concepções divergentes. A junção destes dois termos em uma única expressão gerou – e gera – os mais variados posicionamentos semânticos. História das Idéias! Um dos campos de estudo historiográfico mais complexo de definir. A obiquidade do objeto contribui para problematizar – pois compreendendo as idéias enquanto obíquas e ontológicas, muitos historiadores defendem de que o que existe são as idéias, o restante (o mundo palpável) são as representações desviadas destas. De forma objetiva: as coisas não são como as percebemos pelos nossos mecanismos sensoriais; existe uma segunda realidade, mais profunda e complexa, que só pode ser percebida pela obtenção da realidade primária pelo intelecto e sua subseqüente submissão ao campo das idéias.

Ademais dessas extravagâncias hermenêuticas, correntes historiográficas apontam para a proposição de uma história das idéias enquanto análise epistemológica de conhecimentos que possuam as ‘idéias’ como objeto de estudo. Mas nos enganamos se pensarmos que esta proposística é oriunda das vertentes marxistas ou das primeiras gerações dos Annales – estas correntes sempre se opuseram às ‘idéias’ enquanto objeto, o marxismo por sua concepção materialista histórica e os Annales por associarem o estudo das idéias, assim como da política, à concepção historiográfica tradicional. Na França, berço de frutífera escola historiográfica, não há menção de ‘história das idéias’ como disciplina, configurando-se apenas enquanto variante da história da filosofia. É em outras escolas que a tendência – objeto de argumentação de Falcon – é encontrada, como a germânica, a italiana e, principalmente, a anglo-saxônica.

Esta bipolaridade não é o único encalço na produção deste segmento historiográfico. Segundo Darnton – com base ainda em Falcon – existem no mínimo quatro concepções disciplinares que reclamam para sí as ‘idéias’ como objeto de estudo. A primeira é o estudo das idéias expostas em tratados filosóficos e sua evolução. Outra é a história intelectual, que estuda o pensamento informal, climas de opinião, etc. A terceira noção é a que se detém à análise das ideologias, chamada de história social das idéias. Por fim a história cultural, em seu sentido antropológico. Várias tentativas foram realizadas com o intuito de aproximar estas disciplinas históricas, mas a maioria se mostrou falha, devido principalmente às deficiências teóricas dos historiadores. O que levou Chartier a afirmar que “[...] diferenças terminológicas e conceituais apenas demonstram a inexistência de um objeto comum homogêneo” (p.93). Subentende-se portanto que, as ‘idéias’ enquanto objeto comum, as abordagens e metodologias são heterogêneas.

A grande maioria dos historiadores parte do pressuposto de que as idéias possuem significados definidos e estáticos – uma herança do pensamento iluminista. Com base na lógica cartesiana as idéias tem uma função representacional, não evidencia-se – caso haja – a preocupação em compreender como as idéias adquiriram seus significados no jogo das relações sócio-históricas. Correm o risco – utilizando este pressuposto – de cometer um anacronismo, pois ao perceber os significados das idéias desconexos de sua rede de relações semânticas e interacionistas, não se percebe a maleabilidade dos sistemas de idéias – pois estas variam de forma e significado conforme o contexto e questão. Em linhas gerais, a história das idéias – enquanto epistemológica e não simplesmente hermenêutica – exige uma rigorosa contextualização, o que se verifica, segundo Falcon, em seus principais expoentes (Skinner, Pocock, Dunn...). Portanto, para fazer uso das idéias enquanto objeto “[...] é necessário ter presente que um texto ou mensagem não possui um sentido qualquer fora da especificidade do sistema de operações semânticas que define sua recepção pelos destinatários! Em síntese, é imperioso passar-se da ‘concepção representacional à operacional da significação’, ou seja, da noção de ‘idéia’ à de ‘signo’, uma vez que se trata de ‘processos’ [de significação] e não de ‘entidades’.” (p. 96)

A concepção iluminista de idéia “entidade representativa” foi duramente questionada – como tudo que é de origem iluminista – pelos movimentos pós-modernistas. Até mesmo em Nietzsche já é perceptível esta crítica, ao afirmar que as mensagens do mundo palpável devem ser refletidas pelo intelecto humano, o qual desconstrói as farsas e produz o “verdadeiro conhecimento da realidade”. Nietzsche avança na crítica ao afirmar que não é qualquer pessoa capaz de tal intento, mas sim o “super-homem” – um novo homem liberto das amarras conceituais e morais do pensamento iluminista. Os conceitos nietzscheneanos foram expandidos durante o século XX, por pensadores com Heidgger, Wittgestein, Dewey, Peirse, Saussure e Foucalt. No que concerne propriamente à história, contribuiu também para esta nova concepção de “idéia”, a aproximação com a lingüística, a semiótica, a teoria da comunicação, a retórica, entre outras áreas do conhecimento. Neste contexto, o historia das idéias tende a ser substituída, conforme Chartier e Darnton, por uma história intelectual, a qual não se preocupa apenas com idéias de caráter político-funcionais, mas abrange seu foco para crenças não-articuladas, opiniões amorfas, suposições não-ditas, ou seja, com os processos de significação de determinadas idéias, que tomam a forma de “espírito de épocas” ou “mentalidade coletiva”.

Entretanto, o Iluminismo teve uma considerável contribuição para o estudo das idéias ao defini-las enquanto imanentes ao ser humano e não mais como uma instância transcendente conforme a patrística de Santo Agostinho. No seguinte ao das “Luzes”, a Ilustração recebeu críticas e louvores. No que concerne às primeiras, o romantismo foi o movimento principal. Já o segmento histórico-filosófico herdeiro da tradição setecentista pode ser agrupado em uma concepção genericamente chamada de “positivismo”. O romantismo caracteriza-se por ser um gênero literário idealizador do passado, para tal, busca evidências em documentos, ao mesmo tempo que induz à imaginação, à reflexão e à subjetividade. Um dos principais herdeiros do romantismo é o filósofo alemão Hegel e o historiados – de mesma nacionalidade – Ranke. Para estes pensadores as idéias possuem um papel primordial no que Humboldt chama de “idéia de cada época”. Segundo Falcon, é através desta perspectiva que podemos interpretar, com maior clareza, a famosa frase de Ranke: “[...] a tarefa do historiador é expor aquilo que realmente aconteceu”. Deve buscar compreender – não explicar – o ideário da época em questão. Outro ponto de desacordo entre os ramânticos e os iluministas é a generalidade da história. “Os historiadores opuseram ao universalismo e naturalismo iluminista a individualidade histórica irredutível aos povos e nações e do próprio indivíduo. [...] Assim, é no particular que se manifesta a presença do universal, é na diferença, e não em princípios universais, que a História se concretiza.” (p.99). Em linhas gerais é, portanto, uma epistemologia histórica adversa à explicação discursiva e simplista dos métodos generalizantes.

Em meados do século XIX, principalmente na França, desenvolveu-se uma nova concepção histórico-filosófica, cientista e evolucionista, denominada genericamente de “Positivismo”. Esse período histórico em questão foi marcado pelo advento das ciências da natureza e de seus métodos explicativos. O “espírito da época” tendia então em defender que todas as ciências deveriam ter mecanismos organizacionais como o das naturais. A sociedade, nesta perspectiva, possuía leis universais, as quais estavam acima da vontade humana. São três as correntes cientificistas deste período. A primeira é o Positivismo Comteano; a segunda, o Evolucionismo ou Darwinismo Social; e, à concluir, o Materialismo Histórico – é importante ressaltar que este último, defende a dialética como superação à explicação discursiva. Apesar de distintas entre si, estas vertentes apresentam características comuns – o que levou Cardoso a reuni-los no “Paradigma Iluminista”. No que tange as idéias, a principal contribuição deste paradigma foi a afirmação de que as idéias são produtos da realidade – socialmente determinados – e não se constituem enquanto esferas distintas do real, mas, concomitantemente, dão unidade estrutural à história.

Acima foi salientado que os pressupostos iluministas foram duramente questionados durante o século XX. Para a melhor compreensão deste século tão rico na produção historiográfica, Falcon o divide em três períodos: de 1890 a 1930, compreendendo a Belle Époque e o período entre-guerras; de 1930 a 1970, ou seja, do período que se extende da Grande Depressão ao maio de 68 e ao movimento hippie; e, por fim, de 1970 1 1995, no qual percebe-se 0 predomínio da chamada Nova História, principalmente após a falência – político-ideológica – da URSS.

Falcon foge – em métodos – da maioria dos historiadores das idéias no que concerne a periodização. Ao valorizar a importância da Belle Époque discorda dos demais que iniciam o século XX pelo primeiro pós-Guerra – como Hobsbawn na obra “Era dos Extremos”. Mas no campo da história das idéias, qual é a importância deste período? Para a resposta, o autor se baseia em Hughers, o qual afirma que este foi o período da “revolta antipositiva”. O cientismo – ou cientificismo – foi atacado por várias vertentes, das quais destacaram-se o neo-idealismo e o irracionalismo. Embora este último tenha alcançado destaque, a maioria dos movimentos defendia o resgate da razão. “Revolta Positiva. Esta expressão traduz [...] o elemento comum presente nas diversas correntes intelectuais de então. Outras denominações criadas com o mesmo fim – ‘neo-romantismo’, ‘antiintelectualismo’, ‘irracionalismo’ etc. – seriam menos precisas e abrangentes, já que estão presas às características das tradições histórico-culturais de ambientes intelectuais específicos. O caráter ‘antipositivista’, pelo contrário, indica o alvo comum, acima das diferenças, eram sempre as ‘teorias filosóficas e sociais típicas dos séculos XVIII e XIX’, quer dizer, em síntese: ‘o pensamento iluminista’.” (p.103). Há de se salientar que esta revolta foi encabeçada por pensadores burgueses, principalmente contra o que na época era conhecido – por alguns autores, notadamente de oposição – como “positivismo materialista”, que, por mais paradoxal que pareça, é o marxismo.

Com essa série de críticas ao método positivo o historicismo ganhou um sobrevida e, junto com o marxismo, foi a concepção dominante no período. E, como toda tendência normativa, foi alvo de críticas. É o período da emergência da École des Annales – a qual negava-se em admitir as idéias enquanto objeto de estudo, dado à associação já referenciada com a história tradicional – e da New History dos EUA. Os anos entre 1930 e 1960 foi marcado pela aproximação entre os marxistas e os annalistes. Segundo Cardoso, as duas primeiras gerações dos Annales são muito mais ligadas à epistemologia iluminista do que à pós-moderna. Afirmação que toma nos métodos braudelianos – essencialmente economicistas – sua sustentação argumentativa. O marxismo encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento na Grã-Bretanha, através do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico – Hobsbawn, Thompson, Hill, Anderson... Era um grupo de, aproximadamente trinta historiadores que publicavam seus artigos, principalmente, na Revista Post and Present (1953-1956). Com mais ênfase do que nas de outros autores, as obras de Thompson ressaltam a influência do cultural – da consciência, das atitudes morais etc. – nos eventos econômicos – como a formação de classes sociais. Com os eventos da década de 1960 – hippies e “maio de 68” – desenhou-se um campo para a análise das “idéias” sem o receio de perder-se em um emaranhado simplista ou regressar ao idealismo puramente hegeliano. Esta nova tendência passou a ser chamada de “Nova História Intelectual”. Podemos então afirmar que o período foi marcado pela re-introdução das idéias, enquanto categorias de análise, em conceitos expressados como “espírito de época” e “imaginário coletivo”.

O último período da divisão de Falcon – de 1970 a 1995, a lembrar que a obra analisada é deste último ano – foi marcado por uma considerável multiplicidade disciplinar. No campo das “idéias objeto de estudo” se destacaram a New Intellectual History, no mundo anglo-saxão, e a História Sociocultural, na academia francesa. Além dessas – que possuem as idéias como objetos em si – ainda na França, a História das Mentalidades acresceu à este “objeto” uma considerável importância. Entretanto é o período da ascensão do pós-modernismo – do qual o autor não se mostra muito simpático – não só na história disciplina, mas também na lingüística, na semiótica, na filosofia entre outras áreas do conhecimento. Portanto, para elaborar qualquer esboço sobre a história da História das Idéias neste período é preciso ter claro esta bi(multi)polarização da disciplina histórica e da prática historiográfica. Em um extremo se encontra a tendência que defende a intrínseca relação entre o mundo “real” e o universo das “idéias” e, em outro, a perspectiva pós-moderna que defende o estudo das “idéias” em sua dinâmica textual – dissociado da práxis – considerando apenas suas formas de dimensão e representação discursivas.

Herdeiros das tradições iluministas – marxistas e estruturalistas – os historiadores adeptos da primeira tendência podem ser divididos – ou subdivididos – em dois grupos principais: os que fazem uso do conceito de ideologia, ou seja, buscam compreender os explicar os fenômenos que deram origem às idéias e as funções dessas na vida social; e, os que vagamente fazem referência à terminologia “ideologia” – embora mantendo uma postura estruturalista. O primeiro grupo pode ser alinhado nas perspectivas gramschianas, althusserianas, poulantsasianas, ou mesmo nas orientações de Thompson, Hobsbawn, Jameson... Claramente, embora sob óticas as mais diversas, é predominante o marxismo – ou neo-marxismo. Fora do âmbito acadêmico materialista-histórico – mas não alheio à ele – o outro grupo, em sua maioria, é formado por historiadores annalistes, como Duby, Monchou e Vovelle. Sob este perspectiva a análise histórica deve se focar nos sistemas de representação, sendo que as idéias e ideologias ingressam na ordem dos processos simbólicos. É a chamada História Sociocultural, enquanto o grupo acima pode ser encaixado na chamada New Intellectual History.

A outra tendência paradigmática – a pós-moderna – é oriunda da academia francesa. Falcon afirma que o grande precursor desta corrente é o filosofo francês Michael Foucalt. Ressalta que “seus livros, no decurso da década de 1960, se despertaram algumas curiosidades e críticas, não representaram de imediato aquela espécie de vendaval que anos mais tarde a visão retrospectiva veio a atribuir-lhes.” (p.115) Para Foucalt e seus “discípulos” não são as continuidades que permeiam o campo historiográfico, mas sim as rupturas. É neste ponto que a História das Idéias ganha destaque, pois “[...] ao mesmo tempo que questiona a historiografia tradicional, [Foucalt] desenvolve sua própria explicação para o fato de ser justamente no campo das idéias que as recentes mutações metodológicas encontram as maiores resistências. [...] pois foi sempre essa história a verdadeira fortaleza do humanismo, da filosofia do sujeito e, enfim, de uma certa concepção de história [...] como História do Homem.” (p. 116).
Como anteriormente foi citado, a História das Idéias é um dos campos disciplinares de mais complexa definição. Essa condição se agravou no período pós-maio de 68. De um lado o marxismo passa por uma re-interpretação – conforme arisca Vainfas – nos quais os aspectos culturais e de representação passam a ser entendidos como de considerável relevância para a formação das classes sociais, o que faz com que as “idéias” e suas formas representativas – signos – recebam ênfase diferenciada, como se verifica na Nova História Intelectual. Trata-se de uma nova reflexão, mas, indubitavelmente, ainda é marxista, estrutural. De outro a tendência pós-moderna que chega ao extremo de afirmar que a realidade social não existe de forma relacionada – ou mesmo relacionável – à das idéias, ou seja, que estas últimas existem de forma autônoma e deve ser estudada independentemente de sua conexão com o restante. Entre estes extremos contemporâneos há a opção pela História Sociocultural oriunda na Nova História – terceira geração dos Annales – que se dedica a análise das idéias, não como ideologias nem como sistemas autônomos de representação, mas sim como sistemas de representação intrinsecamente relacionados com a prática social. Todos estes movimentos historiográficos possuem especificidades conflitantes, mas têm em comum o conceito de ruptura, de descontinuidade, como espaços temporais e históricos onde as idéias se manifestam.


Referência

FALCON, Francisco. História das Idéias: pluralidade disciplinar e conceitual. Da História das Idéias à História Intelectual e/ou Cultural. IN: CARDOSO & VAINFAS (org). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. (p. 91 a 125).

A relação entre história, memória e identidade na perspectiva de Astor Diehl

O professor Astor Antônio Diehl possui graduação em Estudos Sociais pela PUC-RS, graduação em História Licenciatura Plena pela PUC-RS, especialização em História do Brasil pela PUC-RS, mestrado em História do Brasil pela PUC-RS e doutorado em Teoria, Metodologia e Didática da História pela Ruhr Universitat Bochum. Atualmente é docente do mestrado em Educação da UPF, membro de corpo editorial da Revista Eletrônica da ANPUH/RS e membro de corpo editorial da Revista Câmbios Históricos. É autor, coautor ou organizador de mais de cinquenta livros, além de vários artigos publicados em revistas científicas. Dentre suas obras podemos destacar ‘A cultura historiográfica nos anos 80: mudança estrutural na matriz historiográfica brasileira’, ‘Matrizes da cultura histórica brasileira. Do crescente progresso otimista à crise da razão histórica – uma introdução’, ‘Vinho Velho em Pipa Nova (o pós-moderno e o fim da história)’, ‘A cultura historiográfica brasileira (do IHGB aos anos 1930)’, ‘A Cultura Historiográfica Brasileira (década de 1930 aos anos 1970)’, ‘Cultura Historiográfica: memória, identidade e narrativa’, entre outras.

O artigo presente tem como proposta a análise e o apontamento de perspectivas para os temas relacionados à memória e às identidades, sob o viés da reinterpretação dos conceitos de tempo, espaço e movimento. Preocupa-se em apresentar um texto que proporcione a iminência das novas possibilidades historiográficas alicerçadas por um método hermenêutico de pesquisa. Subdivido em cinco parte – Memórias, história e contemporaneidade, Memória e história, Memória: crise e narração histórica, Memória e narrativa historiográfica e Identidade como chave da contemporaneidade – o artigo aborda alguns dos condicionantes para a emersão das preocupações acerca da temática da memória e das identidades, além de promove-las a um patamar que fica, indubitavelmente, acima da noção de exotismo ou folclore: podem ser a base para a compreensão dos processos históricos que o paradigma dominante até então não dava conta de explicar. De acordo com Diehl, "Para a história, não são as memórias e identidades os pontos centrais, mas as suas respectivas representações nas experiências e expectativas de vida. São exatamente essas representações os elementos da compensação do déficit de critérios iluministas no mundo cultural, cujo processo de rememorização é trazido na ressubjetivação e repoetização de sentidos culturais do passado." (p. 144)

Na primeira parte do artigo, Diehl aponta que os conceitos chaves da perspectiva histórica de origem iluminista (tempo, espaço e movimento) foram superados pelas novas demandas sociais. O tempo – compreendido como linear –, o espaço – enquanto o que está dado geograficamente – e o movimento – ideal de progresso como meio e fim em si – passam a ter conotações existenciais, precipuamente no que concerne aos processos de (res)significação e (re)valorização das práticas culturais. À jusante desse pensamento, o estudo da memória e das identidades deve estar interligado à esse tripé, ou seja, buscar na memória não apenas vestígios do passado, mas a dinâmica dos processos e ressemantização e ressignificação decorrentes do tempo que separa o momento da evocação do objeto rememorado, e, na identidade não apenas características que figuram como normativas na noção de nação ou nacionalidade, mas em suas especificidades regionais e territoriais, dimensionadas simbolicamente por grupos e em grupos sociais.
O historiador salienta que é imprescindível, para o fazer historiográfico, diferenciar memórias de lembranças. Essa, na perspectiva da disciplina histórica, é composta por um amontoado de restos, vestígios, imagens desfocadas, de um passado desconexo com um contexto mais amplo. "Lembranças são localizadas no passado de forma estática, são elementos intransparentes, individuais e que perdem gradativamente seus pontos de referência no tênue horizonte entre o passado e o presente." (p. 146). Por sua vez, a memória é contextualizável e se faz na relação com a temporalidade perpassada pela experiência. Constitui-se como uma fonte consistente de imagens sobre o passado, revela formas de fazer, de pensar, de viver. Entretanto, o ato de rememorar pode – e é comum que o faça – poetizar o passado, torna-lo mais agradável, mais digerível. Na esteira dessa dinâmica muitos fatos são subscritos, se constituindo – e não raro cristalizando – como silêncios no discurso da rememoração. O historiador deve estar atento à esses silêncios: eles também fazem parte da memória, também são contextualizáveis.
A ênfase da segunda parte do texto é atribuída Às possibilidades da memória enquanto fonte do trabalho historiográfico. Entretanto, segundo o autor, ela deve passar, assim como os demais tipos de documentos utilizados pelo historiador por uma crítica das fontes. Diehl classifica essas críticas em duas esferas parcialmente interligadas: a teorização e a metodização. A teorização consistir-se-ia em uma argumentação, pautada por critérios de cientificidade, que contextualize e problematize o discurso rememorado, assim como seu enunciador, conferindo-lhe, desse modo, plausibilidade científica. Já metodizar refere-se a desenvolver regras de pesquisa que possibilite uma relativa padronização dos critérios visando objetividade explicativa – entretanto relativa, pois o discurso da memória se constitui nas trocas de experiências entre seres humanos em uma dimensão social. Esse processo teórico, de acordo com Diehl, garante à memória e à identidade a condição de fonte de pesquisa historiográfica. Nas palavras do autor, "Sob a rubrica metodizar estão expostas as possibilidades de a memória ser fonte de experiência, de continuidade/ruptura, de identidade, de sentido e de comunicação. Com essas possibilidades, a memória adquire qualidade em, pelo menos, quatro níveis como consciência histórica, como argumento, como explicação histórica e como narrativa." (p. 150)

O terceiro período textual é marcado pela preocupação em apresentar o contexto de crise da perspectiva tradicional da historiografia, além de diferenciar experiência e vivência. Para o autor, as novas possibilidades para a disciplina histórica – mais especificamente para a inclusão da memória e da identidade como fontes de pesquisa com plausibilidade científica – se dão pelo estudo da memória sob o viés das experiências (caracterizada pela sociabilidade comunitária) e não das vivências (relações a-históricas, ou seja, sem um vínculo específico com um contexto). Essa análise é prolongada para o quarto subtexto, onde, para além da diferenciação entre vivência e experiência, Diehl propõem que as narrativas acerca das experiências podem se desenvolver em quatro esferas (constelações), que demonstram estratégias de significação do tempo passado e formas distintas de compreender o tempo histórico enquanto locus dessas experiências.
Segundo o professor, a Constelação narrativa tradicional entende o tempo como linear, ou pelo menos, com um sentido imutável. Busca explicitar a genealogia de algumas durações e, mesmo, de algumas mudanças. A Constelação narrativa exemplar, é caracterizada pela valorização de regras gerais, que evidenciam práticas culturais ou modos de sociabilidade e identidades. Neste caso o tempo tem sentido de especialidade (dominar as regras e ser reconhecido enquanto membro de um grupo em questão). A Constelação narrativa crítica entende o tempo histórico enquanto ruptura, pois, ao elaborar sua narrativa, o sujeito questiona algumas concepções predeterminadas, assim como conceitos estanques e cristalizados. Por fim, na Constelação narrativa genérica o tempo histórico narrado é o do próprio presente. As mudanças são encarados num sentido de desenvolvimento. Os fatores exógenos são compreendidos como propiciadores de progresso e de melhoria das condições de vida.
A quinta parte do artigo é marcada pela reiteração das defesas prognosticas nos capítulos anteriores. Para o autor, o método moderno de pesquisa histórica tradicional ruiu, pois não comporta mais as demandas inerentes do tempo presente. Para reavivar a disciplina histórica propõem uma reinterpretação dos conceitos de tempo, espaço e movimento, os quais serão panos de fundo – e objetivos centrais – para as análises das memórias e das identidades. Entretanto, o autor não concorda com as perspectivas pós-modernas; defende, sim, uma nova perspectiva ainda moderna. O método hermenêutico proposto por Diehl não é desprovido de base teórica, pelo contrário, está alicerçado em critérios que, se não garantem, asseguram certa plausibilidade científica para a disciplina histórica – não mais ciência. Seriam eles: a crítica exaustiva das fontes de memória (iconográfica, oral, audiovisual...), a definição de critérios que ‘padronizem’ a análise sobre estas fontes, a contextualização do discurso e de seu enunciador e a fundamentação teórica.

Referência

DIEHL, Astor Antônio. Memória e Identidade: perspectiva para a história. In: TEDESCO, João Carlos (org). Usos de Memórias. Passo Fundo, RS: UPF, 2002. (p. 141 a 160)

A História Cultural por Peter Burke: sobre o texto que inicia com uma pergunta e termina com várias.

O inglês Peter Burke é uma exceção à tradição historiográfica britânica. Em um país de críticos sociais – marxistas ou não – a ênfase aos sistemas de representação em determinados processos históricos dada pelo autor é um tanto quanto inusitada. O professor de História Cultural da Cambrigde oscila entre a história cultural e a social – é mais proeminente na primeira – afirmando que não são excludentes entre si. Mas apresentam abordagens diferentes para um mesmo objeto. A fusão de ambas – acrescidas da história econômica e política – possibilita, segundo ele, uma visão holística, compreendendo a complexidade das ações humanas. Argumenta que uma grande confusão historiográfica deve ser evitada: a de associar o objeto a uma dada disciplina histórica. O debate deve ser transferido do objeto para o método. É possível, sob esta perspectiva elaborar um projeto historiográfico sobre a recente invasão de produtos e “valores” norte-americanos no Brasil através de uma abordagem política, econômica ou cultural. Cada uma contribuindo com sua parcela para a racionalização do processo. Sob esta óptica, o autor já publicou “A Fabricação do Rei”, “História e Teoria Social”, “A Escola dos Annales”, “Uma História Social da Média”, “Uma História Social do Conhecimento”, “Hibridismo Cultural” (a pedido da Universidade do Vale do Rio dos Sinos), entre outros.

O que hoje é a tendência hegemônica na prática historiográfica foi – por quase dois séculos – a prima pobre das demais disciplinas. É interessante apontar que desde que a história tornou-se disciplina cientifica vários historiadores se interessaram pela “cultura” – para não falar de Tucídides na Grécia Antiga. Mas por não servir aos interesses políticos imediatos foi relegada à uma posição marginal, sem grande aceitação nos meios acadêmicos. É evidente na obra destes pensadores uma reação contra o reducionismo do historicismo – que só aceitava fontes oficiais impressas – do positivismo – estritamente político – e do marxismo – estritamente economicista. Foi na Alemanha pré-Unificação – quando esta era mais uma comunidade cultural do que política – que estudos neste sentido se desenvolveram, sendo produzidas obras extraordinárias de história cultural, embora os principais autores fossem sociólogos, como Max Webber e Norbert Elias. A disciplina pode ser dividida em quatro períodos – embora não exista uma fronteira temporal clara entre eles – principais: o “Clássico”, de aproximadamente 1800 à 1930; o da “história social da arte”, de 1930 à 1960; o da “descoberta da história da cultura popular”; na década de 1960; e o da Nova História Cultural, de 1970 para cá. O presente artigo discute os três primeiros períodos.

Embora fosse uma reação às tendências dominantes de historiografia, a História Cultural Clássica – fruto de sua época como era – mantinha pressupostos dominantes nas outras disciplinas. De modo indubitável, o principal destes era a visão holística. Os principais autores deste período, Bueckhardt e Huizinga preocupavam-se em realizar um esboço narrativo, generalizante, do que chamaram de “espírito de época” – conforme Burckhardt – e “estilo/forma de toda uma cultura” – nas palavras de Huizinga. Para realizar tal empreito valiam-se da hermenêutica intuitiva. Esta hermenêutica intuitiva era o principal alvo das criticas de historiadores adversos. Algumas fontes eram selecionadas e serviam – com critérios não bem definidos – como padrões culturais. Embora discutível na essência, é nítida a visão holística. Huizinga declarou “[...] que o principal objetivo do historiador cultural era retratar padrões de cultura, em outras palavras, descrever os pensamentos e sentimentos de uma época e suas expressões ou incorporações nas obras de literatura e arte. O historiador, sugeria ele, descobre esses padrões de cultura estudando ‘temas’, ‘símbolos’, ‘sentimentos’ e ‘formas’.” (p. 18)

A preocupação de Huizinga pelas formas e regras culturais são amplamente percebidas em “Outono da Idade Média”, de 1919. O sociólogo Max Webber contribuiu para o desenvolvimento da disciplina através do conceito de “ethos” ou “sistema de valores” culturais que determinam ações sociais, políticas e econômicas. As contribuições de Norbert Elias – que segundo o próprio autor não eram intencionais – ocorreram na aproximação da história com a psicologia de Freud. É importante salientar que, conforme Burke, esta história cultural era voltada para a cultura das elites, para os cânones culturais.

No seu processo de construção disciplinar a história cultural absorveu, como salientado acima, conceitos de outras ciências, como a sociologia, psicologia, antropologia... um dos conceitos de maior impacto foi o de “esquema”. A partir deste se compreendeu que para a compreensão de uma dada cultura é preciso ocorrer a tradução desta e a associação a um esquema cultural pré-existente. Deste modo é compreensível a associação do navegador Vasco da Gama, ao chegar às Índias, de um templo hindu com um cristão, pois o segundo já existia em seu esquema de cognição. “A idéia do esquema mostrou-se muito estimulante para historiadores culturais e outros. Os psicólogos afirmam que é impossível perceber ou lembrar de qualquer coisa em esquemas” (p. 22).

Outro conceito importante é o de iconologia, defendido por Panofsky. Com base neste, uma obra de arte sobre um determinado evento tem muito mais a dizer sobre o período em que foi pintada do que sobre o evento que representa: é a chamada hermenêutica visual. Exemplo disso são as representações de Alexandre da Macedônia e Hércules produzidas durante o reinado de Luiz XIV de França, o “Rei Sol”. A iconologia possibilitou o desenvolvimento de uma “história social da arte” – segundo período acima citado. Uma análise voltada não só para a retórica discursivo-textual de materiais tipográficos mas também da retórica discursiva-textual – se partirmos da compreensão de que tudo é texto – de representações imagéticas.

O marxismo – movimento duramente criticado pelos historiadores da cultura por suas limitações – contribuiu de forma determinante para a disciplina com a introdução de um novo conceito: o de “povo”. Mais precisamente o de “cultura popular”. Os historiadores da cultura dos períodos anteriores se preocuparam com a alta cultura. Burckhadt e Huizinga estudaram obras de Rafael e dos irmãos van Eick, ligados à ascendente burguesia da Itália e Holanda renascentistas. Weber dedicou-se a perceber a influencia do calvinismo na formação da burguesia norte-americana e européia. Elias observou as mudanças nos hábitos nas mesas de jantar das cortes européias. Evidentemente não existiam as massas nestas obras. Podemos afirmar que para estes autores os populares eram meros reprodutores ou distorcedores da cultura da elite. Duas obras de autores maexistas mudaram esta perspectiva: “História Social do Jazz”, de Francis Newton (na verdade Eric Hobsbawm), e “A formação da classe operária inglesa”, de Edward Thonpson. A primeira obra citada não discutia o jazz em si. Mas seu público seus interesses, suas condições, etc. segundo Burke, “como era de se esperar de um famoso historiador econômico e social, o autor não discutia somente música, mas também seu público, abordando o jazz como negócio e forma de protesto político e social. Ele concluía que o jazz exemplifica a situação em que a música popular não submerge, mas se mantém no ambiente da moderna civilização urbana e industrial” (p. 30).

Thompson não limita sua análise a influência da economia e da política na formação do ideário operário da Grã-Bretanha. Explicita a importância dos rituais de iniciação, da simbologia de alguns espaços geográficos na vida social. Através desta abordagem Thompson pôde descrever a “estrutura de sentimento” imprescindível para a identificação do operário como membro de uma classe e de uma cultura. O que Thompson propõem não é uma simples introdução de conceitos, mas sim uma reinterpretação da teoria marxista, o que causou sérias criticas ao historiador.

Autores não marxistas, passaram, a partir destas obras, a se preocuparem com a cultura popular ou – conforme Gramsci – das classes subalternas. Os principais exemplos são Le Roy Ladurie, Natalie Davis e Carlo Ginzburg – autores contemporâneos que não se definem como integrantes da “Nova História Cultural”. Seguem uma tendência que não é só da história, mas também da geografia, antropologia, sociologia, e até mesmo da arqueologia e biologia. Esta tendência é chamada por Burke de “virada cultural”. Segundo ele “o sucesso internacional do movimento pró-estudos culturais sugere que ele atendeu a uma demanda, correspondeu a uma crítica à ênfase sobre a alta cultura tradicional dada pelas escolas e universidades, e também satisfez a necessidade de entender o cambiante mundo de mercadorias, publicidade e televisão”. (p. 31).

A partir desta perspectiva de cultura popular é possível estabelecer uma relação com a teoria da circularidade cultural do russo Mikhail Bakhtin, sob a qual a cultura popular e a alta cultura interagem criando uma espécie de “hibridismo cultural” que é perceptível com maior ou menos ênfase em determinados períodos históricos.

No artigo primeiro da obra “O que é História Cultural?”, entitulado “AGrande Tradição”, Peter Burke esboçou uma breve história (cultural) da história cultural. Argumentou que esta sempre existiu – embora relegada a uma situação marginal na prática historiográfica – como uma reação à exclusiva abordagem econômica e/ou política dos historiadores e tendências mais influentes. Dividiu a disciplina em quatro relevantes períodos e, no artigo citado, expôs a evolução cronológica das três primeiras, da origem até o que denominou de “virada cultural”. Esta “virada” não se desvelou só no campo historiográfico, mas também no sociológico, antropológico... e possibilitou à história cultural – que antes era marginal – uma posição de destaque, ou mesmo de hegemonia. Como era de se esperar, ampliou-se o debate metodológico. Na posição de tendência dominante a história cultural voltou-se para si. Foram percebidos percalços e falhas gritantes nos períodos clássico, artístico-antropológico e de valorização da cultura popular. Revelando uma espécie de pensamento dialético – o que não é comum no autor – Burke se propõe a expor os problemas gerados por soluções à problemas anteriores no desenvolvimento da história cultural no presente artigo.

Em um contexto em que tudo é mercadoria, muitos historiadores culturais receberam duras – e, às vezes, legítimas – críticas por produzirem uma história meramente impressionista que consiga vender bem. Como era de se esperar esta crítica é advinda de marxistas e críticos sociais. Por impressionista – na história – se entende o historiador que produza algo revelador, interessante, instigante e emocionante, mas que não declara – ou não o faz com clareza – as fontes de suas afirmativas. Um dos intelectuais mais criticados nessa ótica é o italiano Carlo Ginzburg. Para e elaboração da obra “O queijo e os Vermes” afirma ter usado como fonte dois processos inquisitoriais arquivados na Abadia de Ubide. Porém muitos pesquisadores revelaram que nunca encontraram os arquivos. Pode também ser considerado impressionista pelos críticos o trabalho – ou historiador – que apresentar dados interessantes e instigantes, mas não apresentar a relevância destes para as demais esferas da vida social. Burckhardt – pelos seus críticos – é encaixado nessa lógica. O próprio teria afirmado que pouco tinha a oferecer sobre a economia e a política do período pesquisado.

Em termos diretos são características do impressionismo historiográfico, a falha no critério de seleção das fortes, a hermenêutica intuitiva e as generalizações decorrentes destas na busca de apresentar uma visão holística da sociedade de certo período. Concernente as fortes, Burckhardt chegou a afirmar que as fontes “culturais” não são passíveis, ou não necessitam, de validação, pois são frutos da ação espontânea e inconsciente de seus produtores. Este conceito tem certo sentido plausível. Porém a generalização é errônea – e até perigosa. Em muitos casos os produtores de fontes do passado – camponeses, editores, pintores – possuem objetivos políticos ao fazê-lo. Portanto não existem fontes iníquas de validação e crítica. Conforme Burke, “como seus colegas de história política ou econômica, os historiadores culturais têm que praticar a crítica das fontes, perguntar por que um dado texto ou imagem veio a existir, e se, por exemplo, seu propósito era convencer o público a realizar alguma ação.” (p. 33). Da mesma forma crítica Huizinga, afirmando que se tivesse usado outras fontes teria chegado a outra conclusão sobre o fim da Idade Média em seu livro “Outono da Idade Média”.

À fragilidade das fontes é acrescida à fragilidade do método de análise. Para observar e extrair destas fontes as informações necessárias faz-se imprescindível uma aguçada sensibilidade intelectual. Esta hermenêutica pessoal muitas vezes é puramente intuitiva. Se lembrarmos que todo processo de tradução é dependente de um “esquema” intelectual pré-formado, muitas vezes o observador corre o risco de hipervalorizar alguns pontos e negligenciar outros de grande valia. Vários métodos foram desenvolvidos para auxiliar o pesquisador e, o que galgou mais visibilidade foi o da “análise de conteúdo” – com a criação de vários departamentos de lexicometria. Por ser uma análise quantitativa é questionável seu uso para um campo tão subjetivo quanto a “cultura”, podendo ser totalmente infrutífera, chegando a resultados óbvios, como o de que, por exemplo, Rousseau pensava muito – com base em seus textos – nas leis e nos direitos do povo. Conclusão que não é estranha a nenhum historiador. Outra problemática importante para a “análise de conteúdo” está na semântica. É sabido que uma palavra pode ter os mais variados sentidos dependendo do contexto em que está inserida, o que não e resolvido por uma contagem de palavras.

Outra questão problemática é a de que, como a história cultural – nas suas origens – buscava uma compreensão holística do universo mental de um determinado período, muitos historiadores, com base em algumas fortes advindas de algum grupo especifico, estendem suas conclusões a todas as pessoas de uma época. No tocante à generalização, devemos levar em consideração a afirmação de Ernest Bloch, de que “[...] nem todas as pessoas existem no mesmo Agora. Isso só acontece externamente, pelo fato de poderem ser vistas hoje.” (p. 36). É a teoria das “zonas temporais” para a qual converge a assertiva de que grupos sociais contemporâneos não são necessariamente contemporâneos – pelo menos não em seu universo mental. Esta visão parece um tanto óbvia hoje, em mundo em constante mutação e inovação tecnológica. Mas era reveladora para o período em que foi proposta: a década de 1930.

Além de Ernest Bloch, outros marxistas contribuíram para o debate em história cultural. A mais significativa foi do inglês Edward Thompson, na obra “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Ao estudar os rituais de iniciação e a simbologia dos espaços geográficos na vida dos operários e na construção de um sentimento de pertencimento a um determinado grupo Thompson salientou a coexistência de culturas de classes, rompendo com a perspectiva holística de demais historiadores. Uma outra contribuição dos marxistas foi no tocante ao estudo das tradições, principalmente com a obra de Hobsbawn e Ranger “A Invenção das Tradições”. Apresentaram um problema duplo – os problemas gêmeos: o de que a aparente inovação pode mascarar a tradição e o de que a tradição pode esconder a inovação. Em linhas gerais, não se pode mais estudar a catequização de ameríndios com um processo de simples conversão, mas sim como um processo de adaptação e fusão de conceitos; da mesma forma que não se pode observar com os mesmo critérios a monarquia britânica em 1700 e em 2000. Em tese os marxistas continuam criticando a desconectividade da história cultural com as outras esferas, segundo Burke, “A principal crítica marxista sobre a abordagem clássica da cultura é que ela ‘fica no ar’, faltando-lhe qualquer base econômica ou social [...] Huizinga virtualmente ignorou a peste negra em seu relato sobre o sentimento de mortalidade do final da Idade Média. [...] Uma expressão muito contendente dessa crítica encontra-se em um ensaio de Edward Thompson no qual ele chama a cultura de ‘termo desajeitado’ que amontoa as coisas, esconde as distinções [nega os conflitos] e tende a nós empurrar para noções excessivamente consensuais e holísticas.” (p. 36)

As contribuições marxistas foram de grande importância não só para a história cultural como para o próprio pensamento marxista. Ao abordarem a cultura, os historiadores se interessaram por um conceito excluído por Marx, que a considerava uma mera superestrutura. Podemos arriscar – com muitas ressalvas – que se trata de uma revisão à teoria.

Ao aceitarem a existência da cultura popular enquanto objeto de estudo e não mero folclore, muitos historiadores excederam pelo lado oposto. Abandonaram os cânones culturais, ou mesmo os negaram, considerando que apenas a cultura popular era objeto de pesquisa. Quando não o faziam desta forma criaram uma oposição binária. A existência de duas (ou mais) culturas, sem interconexões e excludentes entre si, como se fosse possível a troca política e econômica, mas de forma alguma cultural. Esta extravagância gerou lacunas tão sérias quanto a anterior – da generalização com base na alta cultura. Para desatar tal nó é preciso recorrer ao pensamento de Roger Chartier e Mikhail Bakhtin. Chartier propõe abordar a “cultura no plural”, ressaltando a existência de culturas mais ou menos autônomas porém interconectadas. Bakhtin defende a não-oposição binária e a teoria da “circularidade”, onde conceitos das altas culturas interferem na das classes subalternas e vice-versa. Ambos propõe que a ênfase deve ser dada nos “sistemas de representação”, através da “análise de discursos”, uma hermenêutica muito mais ampla que da análise de conteúdo, onde se entende que todas as ações humanas – conscientes e inconscientes – podem ser tratados como texto, ou seja, como possuidores de sentidos que apresentam uma visão de mundo ou mecanismos de convencimento para que outras pessoas ou grupos aceitem uma tal visão de mundo.

Teria a história cultural – com a atual designação “nova história cultural” – atingido o patamar de novo paradigma historiográfico? Segundo muitos de seus defensores, sim. E é a esta indagação que o professor Peter Burke se propõe a responder – não se trata necessariamente de uma resposta à questão, mas sim um levantamento de dados, apontamentos e fontes, de forma cronológica, desenhando o complexo período em que a questão se tornou plausível e relevante. Neste artigo salienta as diferenças entre os olhares histórico-culturais dos períodos conhecidos como da “Grande Tradição” e da “Nova História Cultural”. São também expostos os novos campos de pesquisa historiográfica, como a memória e o corpo, até um período relativamente curto impensáveis. As práticas, as representações, a construção de símbolos, as novas interpretações para velhas problemáticas... Sem dúvida um artigo fascinante e esclarecedor – a perspectiva que suscita novas indagações.

Esta ênfase atribuída à cultura não é um privilégio da história. Faz parte de um movimento muito maior – muitas vezes inconsciente – de rompimento com paradigmas holísticos – embora a história cultural nasceu como uma busca pela totalidade –, teleológicos e pragmatistas. Esta “virada”, como Burke exaustivamente ressalta, ocorreu na antropologia, sociologia... Estas ciências desenvolveram – no decurso do século XX – uma teoria cultural. Esta tornou evidente para alguns historiadores problemáticas até então despercebidas ou mesmo negligenciadas. Por sua vez estes novos problemas se estendiam ampliando ainda mais o leque, tornando a história cultural cada vez mais fragmentária e menos holística. Paradoxalmente à ampliação de objetos e possibilidades obriga o historiador a se dedicar a um ou outro aspecto específico – limitando sua abordagem. Ao fazer isso deve estar consciente que a probabilidade de cometer algum anacronismo é ampliada em proporção semelhante a dos objetos. A tendência coetânea, conforme Michel de Certeou, aponta a impossibilidade de quaisquer perspectivas holísticas. Como todo “paradigma” alguns teóricos oferecem a base de estudos, perspectivas e argumentos conceituais e direcionais. Para a nova história cultural os principais, conforme o autor, são Mikhail Bakhtin, Norbert Elias, Michel Foucault e Pierre Bourdieu.

Até meados da década de 1970, Bakhtin não era muito conhecido fora das proximidades do mundo intelectual russo. Foram os lingüistas que primeiro utilizaram seus escritos, porém suas contribuições podem ser consideradas supra-disciplinares. Para a história cultural se dá de três maneiras – embora uma ainda não galgou popularidade devido sua complexidade. Em primeiro lugar seu estudo sobre Rabelais, intitulado “Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento”, forneceu conceitos histórico-linguísticos que, conforme Burke, hoje seria impensável história cultural sem eles: carnavalização, linguagem de mercado, realismo grotesco, dessacralização... Um segundo aspecto contribuinte é o conceito de “circularidade”, que pode ser associado ao pensamento de Jacques Derrida sobre a importância da margem para a formação – construção e desconstrução – do centro. Afirma a existência de culturas contemporâneas relativamente autônomas, mas em constante dinâmica sincrética. Este conceito é amplamente defendido na obra de Ginzburg “O Queijo e os Vermes”. O terceiro aspecto interessante para historiadores na obra de Bakhtin possui m caráter mais metodológico que os anteriores ao afirmar que tudo é texto e que um mesmo texto pode transmitir as mais variadas mensagens – em metáfora do autor: as mais variadas vozes podem ser ouvidas. É a teoria da “heteroglossia”, importantíssima para historiadores da construção e manipulação de signos. Segundo Burke, “[...] o que ele [Bakhtin] chama de ‘polifonia’, ‘poliglossia’ ou ‘heteroglossia’ [...] atraíram pouca atenção, em termos relativos, fora do mundo literário. É uma pena, porque sem dúvida alguma elas podem ajudar a entender o carnaval, por exemplo, como a expressão de muitas vozes diferentes [...], em vez de reduzi-lo a uma simples expressão da subversão popular.” (p.72)

Como uma obra sobre o comportamento à mesa de jantar nas cortes européias pôde influenciar centenas de pesquisadores sobre o seu pensar historiográfico? E, primeiro lugar o método. Norbert Elias utiliza-se da genealogia – conceito que abstraiu do filósofo alemão Nietzsche –, método ampliado posteriormente por Foucault. O sociólogo comparou as cortes européias os séculos dos séculos XVI, XII e XVIII com uma dança. Exige performance e figuração. Para obter uma excelente performance o indivíduo desenvolve o auto-crontole, no caso específico da obra de Elias, portar-se com modos e maneiras adequadas. Nesta dança metafórica, Elias introduz três conceitos que influenciaram o que hoje é chamada de “história do corpo”: fronteira da vergonha, fronteira da repugnância, e pressão social pelo auto-controle.Os primeiros geram o terceiro, ou, em outros termos, o distanciamento entre as fronteiras da vergonha e da repugnância se estreitaram de tal forma que cada vez mais um número maior de pessoas eram excluídas dos ambientes “civilizados”, obrigando quem aí quisesse permanecer – ou entrar – a corrigir seus hábitos e trejeitos. A obra de Elias também pode ser estudada na perspectiva do “outro”, embora não como referencial e sim como objeto. Em “O Processo Civilizador”, por exemplo, o autor afirma que a civilidade é inerente à cultura ocidental, o que exclui o “mundo oriental”, o associando a tudo o que é exótico ou diferente, em resumo, um local onde os europeus podem se apresentar com certo ar de superioridade legitimada.

Pierre Bourdieu nunca realizou nenhum trabalho de história, mas inferiu conceitos de relevante importância. Principal contribuição deste pensador é o conceito de “reprodução cultural”, segundo o qual alguns grupos sócio-culturais utilizan-se dos mais variados mecanismos – como a mídia, por exemplo – para se valer e sobrepor aos demais – disseminando o seu modo de pensar ao mesmo tempo em que se distingue. A ideia da distinção – embora não seja um conceito em si – é que despertou a curiosidade de alguns historiadores. Para identificar-se como diferente – e superiores – os grupos de elite utilizam seu “capital cultural”, quando este não surte as vantagens esperadas, fazem uso de “estratégias” para assegurar seu status. Uma espécie de “capital simbólico”. Outro conceito abstraído de Bourdieu é o de “teoria da prática”, mais especificamente o de “hábitus”, que concerne à capacidade de “[...] improvisação sustentado em uma estrutura d esquemas inculcados pela cultura tanto na mente como no corpo [...]” (p.77). Há uma evidente ruptura com a noção cartesiana de universo, pois, ao defender a fusão cultural mente-corpo, Bourdieu afirma que ambos estão sujeitos à cultura e à esquemas de interpretação cultural pré-estabelecidos.

Foucault preocupa-se com o discurso e os sistemas de representação. A ênfase – diferente da de Elias que era o auto-controle – é nos mecanismos de controle do sujeito desenvolvidos pelo Estado através de um aparelho responsável pela elaboração e manipulação de discursos. Nesta perspectiva tudo é discurso. Um exemplo conhecido da obra deste filósofo é a comparação entre os modelos arquitetônicos de presídios, fábricas e escolas – poderíamos ainda acrescentar hospitais, manicômios... – como discurso de poder. Segue, como já foi salientado, uma linha metodológica genealógica, ou seja, não define o processo histórico como uma evolução programada e gradual, mas como uma soma de acidentes – rupturas e continuidades –, de manipulação e (re)significação de conceitos, imagens e experiências. Esses discursos são por ele chamados de “epistemes”, ou “regimes de verdades”, pois são, concomitantemente, expressões oriundas de uma determinada cultura e as forças que lhe dão formas. Neste interím surge uma questão importante: como identificar um discurso de ruptura? Segundo Foucault é através da interligação entre prática e teoria – porém não na visão dialética. Conforme Burke – a respeito de Foucalt –, “seu conceito de práticas está ligado à uma ênfase no que ele chama de ‘microfísica’ do poder, ou seja, de políticas no nível micro, As ‘práticas dicursivas’, afirma ele, constroem ou constituem os objetos de que se fala, e, em última análise, a cultura ou a sociedade como um todo, enquanto ‘o olhar’ (le regard) era uma expressão da ‘sociedade disciplinar’ moderna.”(p.76) Cada qual com suas especificidades, esses quatro teóricos convergem em dois conceitos-chave comuns: as práticas e as representações, aspectos que definem e diferenciam a nova história cultural de suas predecessoras e demais disciplinas históricas.

Na historiográfica coetânea podemos afirmar que existem paradigmas dentro de paradigmas. Ao considerarmos a nova história cultural como um destes não podemos deixar passar despercebido a existência de métodos e objetos dominantes: entre eles as “praticas”. A historiografia tradicional tem muito se preocupado com a teoria, ou melhor, com as teorias. O humanismo enquanto um sistema de novas crenças e conceitos; as religiões enquanto um conjunto normativo de dogmas... A nova tendência, por outro lado, enfatiza as práticas – as práticas religiosas, cotidianas, no trabalho, na política... Nas palavras do autor “A história das práticas vem tendo impacto sobre campos relativamente tradicionais da história cultural [...] O humanismo, por exemplo, costuma ser definido em termos de suas idéias-chave (sic), [...] Hoje, é mais provável que seja definido em termos de um conjunto de atividades, como a cópia de inscrições, a tentativa de escrever e falar no estilo de Cícero, o esforço para eliminar de textos clássicos as corrupções introduzidas por gerações de copistas e o hábito de colecionar moedas antigas.” (p.80). Através do estudo das práticas podem ser percebidas as mudanças sociais e as inovações dentro de tradições que aparentemente parecem imutáveis, conforme os neomarxistas Hobsbawm e Ranger em “A Invenção das Tradições”. As práticas, conforme Bourdieu, também são mecanismos de diferenciação e distanciamento. Esta questão é perceptível nos hábitos da nobreza decadente, na transição da Idade Média para a modernidade, que mantinha seu status através de uma combinação de práticas – uma espécie de teatro de poder.

Como salientado anteriormente, as representações – assim como as práticas – inflamaram a curiosidade de historiadores culturais. Se tudo é discurso – conforme Foucault – toda ideia que se tem de algo é uma representação. Para a construção da representação é imprescindível a existência de um “esquema”, o qual possibilita as analogias. Um viajante ao visitar uma cultura diferente não o percebe como o fazem seus agentes – com ela incorporada – mas com base em padrões pré-definidos – esquema – de sua própria cultura. O poder é uma destas representações – é entendido como imutável, quase sagrado. A própria palavra hierarquia é significante – em grego antigo – de “ordem sagrada”. Portanto as instâncias podem fazer uso dos esquemas culturais que possibilitam as representações – imaginário – coletivas patentes para a legitimação. Deste modo, podem ser literárias, visuais e mentais. Nunca são autônomas, embora a cultura, conforme Bourdieu, tenha capacidade de criar “espaços” de autonomia para o desenvolvimento de novos conceitos e representações. Segundo Burke, uma fonte importante para o historiador é a memória. Porém mesmo esta precisa de uma crítica indelével: a memória é um “esquema refletido” e expõem as opiniões de um determinado indivíduo ou grupo, que só percebe – lembra – o que seu esquema mental o permite. Em linhas gerais, a memória é um espaço dinâmico de conflito. Grupos rivais mencionam um mesmo evento sob óticas diferentes – ou mesmo excludentes. Conforme o autor, “memórias de conflito também são conflitos de memórias”.

Referência

BURKE, Peter. Um Novo Paradigma? IN:BURKE, Peter. O Que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.