Transitando entre a “História das Idéias” e a “Nova História Política”, Francisco Falcon produziu obras relacionadas às duas correntes historiográficas. Em verdade salienta uma intrínseca relação entre elas, diferenciando – não é regra – o enfoque e o objeto de estudo. Foi professor na UFF e na UFRJ, atualmente é professor titular e pesquisador de História Moderna pela PUC. Desenvolveu vasta obra entre as quais a de maior destaque é “A Época Pombalina” de 1982 pela editora Ática.
Indubitavelmente as terminologias ‘idéias’ e ‘história’ são polissêmicas – uma gama inumerável de movimentos aponta concepções divergentes. A junção destes dois termos em uma única expressão gerou – e gera – os mais variados posicionamentos semânticos. História das Idéias! Um dos campos de estudo historiográfico mais complexo de definir. A obiquidade do objeto contribui para problematizar – pois compreendendo as idéias enquanto obíquas e ontológicas, muitos historiadores defendem de que o que existe são as idéias, o restante (o mundo palpável) são as representações desviadas destas. De forma objetiva: as coisas não são como as percebemos pelos nossos mecanismos sensoriais; existe uma segunda realidade, mais profunda e complexa, que só pode ser percebida pela obtenção da realidade primária pelo intelecto e sua subseqüente submissão ao campo das idéias.
Ademais dessas extravagâncias hermenêuticas, correntes historiográficas apontam para a proposição de uma história das idéias enquanto análise epistemológica de conhecimentos que possuam as ‘idéias’ como objeto de estudo. Mas nos enganamos se pensarmos que esta proposística é oriunda das vertentes marxistas ou das primeiras gerações dos Annales – estas correntes sempre se opuseram às ‘idéias’ enquanto objeto, o marxismo por sua concepção materialista histórica e os Annales por associarem o estudo das idéias, assim como da política, à concepção historiográfica tradicional. Na França, berço de frutífera escola historiográfica, não há menção de ‘história das idéias’ como disciplina, configurando-se apenas enquanto variante da história da filosofia. É em outras escolas que a tendência – objeto de argumentação de Falcon – é encontrada, como a germânica, a italiana e, principalmente, a anglo-saxônica.
Esta bipolaridade não é o único encalço na produção deste segmento historiográfico. Segundo Darnton – com base ainda em Falcon – existem no mínimo quatro concepções disciplinares que reclamam para sí as ‘idéias’ como objeto de estudo. A primeira é o estudo das idéias expostas em tratados filosóficos e sua evolução. Outra é a história intelectual, que estuda o pensamento informal, climas de opinião, etc. A terceira noção é a que se detém à análise das ideologias, chamada de história social das idéias. Por fim a história cultural, em seu sentido antropológico. Várias tentativas foram realizadas com o intuito de aproximar estas disciplinas históricas, mas a maioria se mostrou falha, devido principalmente às deficiências teóricas dos historiadores. O que levou Chartier a afirmar que “[...] diferenças terminológicas e conceituais apenas demonstram a inexistência de um objeto comum homogêneo” (p.93). Subentende-se portanto que, as ‘idéias’ enquanto objeto comum, as abordagens e metodologias são heterogêneas.
A grande maioria dos historiadores parte do pressuposto de que as idéias possuem significados definidos e estáticos – uma herança do pensamento iluminista. Com base na lógica cartesiana as idéias tem uma função representacional, não evidencia-se – caso haja – a preocupação em compreender como as idéias adquiriram seus significados no jogo das relações sócio-históricas. Correm o risco – utilizando este pressuposto – de cometer um anacronismo, pois ao perceber os significados das idéias desconexos de sua rede de relações semânticas e interacionistas, não se percebe a maleabilidade dos sistemas de idéias – pois estas variam de forma e significado conforme o contexto e questão. Em linhas gerais, a história das idéias – enquanto epistemológica e não simplesmente hermenêutica – exige uma rigorosa contextualização, o que se verifica, segundo Falcon, em seus principais expoentes (Skinner, Pocock, Dunn...). Portanto, para fazer uso das idéias enquanto objeto “[...] é necessário ter presente que um texto ou mensagem não possui um sentido qualquer fora da especificidade do sistema de operações semânticas que define sua recepção pelos destinatários! Em síntese, é imperioso passar-se da ‘concepção representacional à operacional da significação’, ou seja, da noção de ‘idéia’ à de ‘signo’, uma vez que se trata de ‘processos’ [de significação] e não de ‘entidades’.” (p. 96)
A concepção iluminista de idéia “entidade representativa” foi duramente questionada – como tudo que é de origem iluminista – pelos movimentos pós-modernistas. Até mesmo em Nietzsche já é perceptível esta crítica, ao afirmar que as mensagens do mundo palpável devem ser refletidas pelo intelecto humano, o qual desconstrói as farsas e produz o “verdadeiro conhecimento da realidade”. Nietzsche avança na crítica ao afirmar que não é qualquer pessoa capaz de tal intento, mas sim o “super-homem” – um novo homem liberto das amarras conceituais e morais do pensamento iluminista. Os conceitos nietzscheneanos foram expandidos durante o século XX, por pensadores com Heidgger, Wittgestein, Dewey, Peirse, Saussure e Foucalt. No que concerne propriamente à história, contribuiu também para esta nova concepção de “idéia”, a aproximação com a lingüística, a semiótica, a teoria da comunicação, a retórica, entre outras áreas do conhecimento. Neste contexto, o historia das idéias tende a ser substituída, conforme Chartier e Darnton, por uma história intelectual, a qual não se preocupa apenas com idéias de caráter político-funcionais, mas abrange seu foco para crenças não-articuladas, opiniões amorfas, suposições não-ditas, ou seja, com os processos de significação de determinadas idéias, que tomam a forma de “espírito de épocas” ou “mentalidade coletiva”.
Entretanto, o Iluminismo teve uma considerável contribuição para o estudo das idéias ao defini-las enquanto imanentes ao ser humano e não mais como uma instância transcendente conforme a patrística de Santo Agostinho. No seguinte ao das “Luzes”, a Ilustração recebeu críticas e louvores. No que concerne às primeiras, o romantismo foi o movimento principal. Já o segmento histórico-filosófico herdeiro da tradição setecentista pode ser agrupado em uma concepção genericamente chamada de “positivismo”. O romantismo caracteriza-se por ser um gênero literário idealizador do passado, para tal, busca evidências em documentos, ao mesmo tempo que induz à imaginação, à reflexão e à subjetividade. Um dos principais herdeiros do romantismo é o filósofo alemão Hegel e o historiados – de mesma nacionalidade – Ranke. Para estes pensadores as idéias possuem um papel primordial no que Humboldt chama de “idéia de cada época”. Segundo Falcon, é através desta perspectiva que podemos interpretar, com maior clareza, a famosa frase de Ranke: “[...] a tarefa do historiador é expor aquilo que realmente aconteceu”. Deve buscar compreender – não explicar – o ideário da época em questão. Outro ponto de desacordo entre os ramânticos e os iluministas é a generalidade da história. “Os historiadores opuseram ao universalismo e naturalismo iluminista a individualidade histórica irredutível aos povos e nações e do próprio indivíduo. [...] Assim, é no particular que se manifesta a presença do universal, é na diferença, e não em princípios universais, que a História se concretiza.” (p.99). Em linhas gerais é, portanto, uma epistemologia histórica adversa à explicação discursiva e simplista dos métodos generalizantes.
Em meados do século XIX, principalmente na França, desenvolveu-se uma nova concepção histórico-filosófica, cientista e evolucionista, denominada genericamente de “Positivismo”. Esse período histórico em questão foi marcado pelo advento das ciências da natureza e de seus métodos explicativos. O “espírito da época” tendia então em defender que todas as ciências deveriam ter mecanismos organizacionais como o das naturais. A sociedade, nesta perspectiva, possuía leis universais, as quais estavam acima da vontade humana. São três as correntes cientificistas deste período. A primeira é o Positivismo Comteano; a segunda, o Evolucionismo ou Darwinismo Social; e, à concluir, o Materialismo Histórico – é importante ressaltar que este último, defende a dialética como superação à explicação discursiva. Apesar de distintas entre si, estas vertentes apresentam características comuns – o que levou Cardoso a reuni-los no “Paradigma Iluminista”. No que tange as idéias, a principal contribuição deste paradigma foi a afirmação de que as idéias são produtos da realidade – socialmente determinados – e não se constituem enquanto esferas distintas do real, mas, concomitantemente, dão unidade estrutural à história.
Acima foi salientado que os pressupostos iluministas foram duramente questionados durante o século XX. Para a melhor compreensão deste século tão rico na produção historiográfica, Falcon o divide em três períodos: de 1890 a 1930, compreendendo a Belle Époque e o período entre-guerras; de 1930 a 1970, ou seja, do período que se extende da Grande Depressão ao maio de 68 e ao movimento hippie; e, por fim, de 1970 1 1995, no qual percebe-se 0 predomínio da chamada Nova História, principalmente após a falência – político-ideológica – da URSS.
Falcon foge – em métodos – da maioria dos historiadores das idéias no que concerne a periodização. Ao valorizar a importância da Belle Époque discorda dos demais que iniciam o século XX pelo primeiro pós-Guerra – como Hobsbawn na obra “Era dos Extremos”. Mas no campo da história das idéias, qual é a importância deste período? Para a resposta, o autor se baseia em Hughers, o qual afirma que este foi o período da “revolta antipositiva”. O cientismo – ou cientificismo – foi atacado por várias vertentes, das quais destacaram-se o neo-idealismo e o irracionalismo. Embora este último tenha alcançado destaque, a maioria dos movimentos defendia o resgate da razão. “Revolta Positiva. Esta expressão traduz [...] o elemento comum presente nas diversas correntes intelectuais de então. Outras denominações criadas com o mesmo fim – ‘neo-romantismo’, ‘antiintelectualismo’, ‘irracionalismo’ etc. – seriam menos precisas e abrangentes, já que estão presas às características das tradições histórico-culturais de ambientes intelectuais específicos. O caráter ‘antipositivista’, pelo contrário, indica o alvo comum, acima das diferenças, eram sempre as ‘teorias filosóficas e sociais típicas dos séculos XVIII e XIX’, quer dizer, em síntese: ‘o pensamento iluminista’.” (p.103). Há de se salientar que esta revolta foi encabeçada por pensadores burgueses, principalmente contra o que na época era conhecido – por alguns autores, notadamente de oposição – como “positivismo materialista”, que, por mais paradoxal que pareça, é o marxismo.
Com essa série de críticas ao método positivo o historicismo ganhou um sobrevida e, junto com o marxismo, foi a concepção dominante no período. E, como toda tendência normativa, foi alvo de críticas. É o período da emergência da École des Annales – a qual negava-se em admitir as idéias enquanto objeto de estudo, dado à associação já referenciada com a história tradicional – e da New History dos EUA. Os anos entre 1930 e 1960 foi marcado pela aproximação entre os marxistas e os annalistes. Segundo Cardoso, as duas primeiras gerações dos Annales são muito mais ligadas à epistemologia iluminista do que à pós-moderna. Afirmação que toma nos métodos braudelianos – essencialmente economicistas – sua sustentação argumentativa. O marxismo encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento na Grã-Bretanha, através do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico – Hobsbawn, Thompson, Hill, Anderson... Era um grupo de, aproximadamente trinta historiadores que publicavam seus artigos, principalmente, na Revista Post and Present (1953-1956). Com mais ênfase do que nas de outros autores, as obras de Thompson ressaltam a influência do cultural – da consciência, das atitudes morais etc. – nos eventos econômicos – como a formação de classes sociais. Com os eventos da década de 1960 – hippies e “maio de 68” – desenhou-se um campo para a análise das “idéias” sem o receio de perder-se em um emaranhado simplista ou regressar ao idealismo puramente hegeliano. Esta nova tendência passou a ser chamada de “Nova História Intelectual”. Podemos então afirmar que o período foi marcado pela re-introdução das idéias, enquanto categorias de análise, em conceitos expressados como “espírito de época” e “imaginário coletivo”.
O último período da divisão de Falcon – de 1970 a 1995, a lembrar que a obra analisada é deste último ano – foi marcado por uma considerável multiplicidade disciplinar. No campo das “idéias objeto de estudo” se destacaram a New Intellectual History, no mundo anglo-saxão, e a História Sociocultural, na academia francesa. Além dessas – que possuem as idéias como objetos em si – ainda na França, a História das Mentalidades acresceu à este “objeto” uma considerável importância. Entretanto é o período da ascensão do pós-modernismo – do qual o autor não se mostra muito simpático – não só na história disciplina, mas também na lingüística, na semiótica, na filosofia entre outras áreas do conhecimento. Portanto, para elaborar qualquer esboço sobre a história da História das Idéias neste período é preciso ter claro esta bi(multi)polarização da disciplina histórica e da prática historiográfica. Em um extremo se encontra a tendência que defende a intrínseca relação entre o mundo “real” e o universo das “idéias” e, em outro, a perspectiva pós-moderna que defende o estudo das “idéias” em sua dinâmica textual – dissociado da práxis – considerando apenas suas formas de dimensão e representação discursivas.
Herdeiros das tradições iluministas – marxistas e estruturalistas – os historiadores adeptos da primeira tendência podem ser divididos – ou subdivididos – em dois grupos principais: os que fazem uso do conceito de ideologia, ou seja, buscam compreender os explicar os fenômenos que deram origem às idéias e as funções dessas na vida social; e, os que vagamente fazem referência à terminologia “ideologia” – embora mantendo uma postura estruturalista. O primeiro grupo pode ser alinhado nas perspectivas gramschianas, althusserianas, poulantsasianas, ou mesmo nas orientações de Thompson, Hobsbawn, Jameson... Claramente, embora sob óticas as mais diversas, é predominante o marxismo – ou neo-marxismo. Fora do âmbito acadêmico materialista-histórico – mas não alheio à ele – o outro grupo, em sua maioria, é formado por historiadores annalistes, como Duby, Monchou e Vovelle. Sob este perspectiva a análise histórica deve se focar nos sistemas de representação, sendo que as idéias e ideologias ingressam na ordem dos processos simbólicos. É a chamada História Sociocultural, enquanto o grupo acima pode ser encaixado na chamada New Intellectual History.
A outra tendência paradigmática – a pós-moderna – é oriunda da academia francesa. Falcon afirma que o grande precursor desta corrente é o filosofo francês Michael Foucalt. Ressalta que “seus livros, no decurso da década de 1960, se despertaram algumas curiosidades e críticas, não representaram de imediato aquela espécie de vendaval que anos mais tarde a visão retrospectiva veio a atribuir-lhes.” (p.115) Para Foucalt e seus “discípulos” não são as continuidades que permeiam o campo historiográfico, mas sim as rupturas. É neste ponto que a História das Idéias ganha destaque, pois “[...] ao mesmo tempo que questiona a historiografia tradicional, [Foucalt] desenvolve sua própria explicação para o fato de ser justamente no campo das idéias que as recentes mutações metodológicas encontram as maiores resistências. [...] pois foi sempre essa história a verdadeira fortaleza do humanismo, da filosofia do sujeito e, enfim, de uma certa concepção de história [...] como História do Homem.” (p. 116).
Indubitavelmente as terminologias ‘idéias’ e ‘história’ são polissêmicas – uma gama inumerável de movimentos aponta concepções divergentes. A junção destes dois termos em uma única expressão gerou – e gera – os mais variados posicionamentos semânticos. História das Idéias! Um dos campos de estudo historiográfico mais complexo de definir. A obiquidade do objeto contribui para problematizar – pois compreendendo as idéias enquanto obíquas e ontológicas, muitos historiadores defendem de que o que existe são as idéias, o restante (o mundo palpável) são as representações desviadas destas. De forma objetiva: as coisas não são como as percebemos pelos nossos mecanismos sensoriais; existe uma segunda realidade, mais profunda e complexa, que só pode ser percebida pela obtenção da realidade primária pelo intelecto e sua subseqüente submissão ao campo das idéias.
Ademais dessas extravagâncias hermenêuticas, correntes historiográficas apontam para a proposição de uma história das idéias enquanto análise epistemológica de conhecimentos que possuam as ‘idéias’ como objeto de estudo. Mas nos enganamos se pensarmos que esta proposística é oriunda das vertentes marxistas ou das primeiras gerações dos Annales – estas correntes sempre se opuseram às ‘idéias’ enquanto objeto, o marxismo por sua concepção materialista histórica e os Annales por associarem o estudo das idéias, assim como da política, à concepção historiográfica tradicional. Na França, berço de frutífera escola historiográfica, não há menção de ‘história das idéias’ como disciplina, configurando-se apenas enquanto variante da história da filosofia. É em outras escolas que a tendência – objeto de argumentação de Falcon – é encontrada, como a germânica, a italiana e, principalmente, a anglo-saxônica.
Esta bipolaridade não é o único encalço na produção deste segmento historiográfico. Segundo Darnton – com base ainda em Falcon – existem no mínimo quatro concepções disciplinares que reclamam para sí as ‘idéias’ como objeto de estudo. A primeira é o estudo das idéias expostas em tratados filosóficos e sua evolução. Outra é a história intelectual, que estuda o pensamento informal, climas de opinião, etc. A terceira noção é a que se detém à análise das ideologias, chamada de história social das idéias. Por fim a história cultural, em seu sentido antropológico. Várias tentativas foram realizadas com o intuito de aproximar estas disciplinas históricas, mas a maioria se mostrou falha, devido principalmente às deficiências teóricas dos historiadores. O que levou Chartier a afirmar que “[...] diferenças terminológicas e conceituais apenas demonstram a inexistência de um objeto comum homogêneo” (p.93). Subentende-se portanto que, as ‘idéias’ enquanto objeto comum, as abordagens e metodologias são heterogêneas.
A grande maioria dos historiadores parte do pressuposto de que as idéias possuem significados definidos e estáticos – uma herança do pensamento iluminista. Com base na lógica cartesiana as idéias tem uma função representacional, não evidencia-se – caso haja – a preocupação em compreender como as idéias adquiriram seus significados no jogo das relações sócio-históricas. Correm o risco – utilizando este pressuposto – de cometer um anacronismo, pois ao perceber os significados das idéias desconexos de sua rede de relações semânticas e interacionistas, não se percebe a maleabilidade dos sistemas de idéias – pois estas variam de forma e significado conforme o contexto e questão. Em linhas gerais, a história das idéias – enquanto epistemológica e não simplesmente hermenêutica – exige uma rigorosa contextualização, o que se verifica, segundo Falcon, em seus principais expoentes (Skinner, Pocock, Dunn...). Portanto, para fazer uso das idéias enquanto objeto “[...] é necessário ter presente que um texto ou mensagem não possui um sentido qualquer fora da especificidade do sistema de operações semânticas que define sua recepção pelos destinatários! Em síntese, é imperioso passar-se da ‘concepção representacional à operacional da significação’, ou seja, da noção de ‘idéia’ à de ‘signo’, uma vez que se trata de ‘processos’ [de significação] e não de ‘entidades’.” (p. 96)
A concepção iluminista de idéia “entidade representativa” foi duramente questionada – como tudo que é de origem iluminista – pelos movimentos pós-modernistas. Até mesmo em Nietzsche já é perceptível esta crítica, ao afirmar que as mensagens do mundo palpável devem ser refletidas pelo intelecto humano, o qual desconstrói as farsas e produz o “verdadeiro conhecimento da realidade”. Nietzsche avança na crítica ao afirmar que não é qualquer pessoa capaz de tal intento, mas sim o “super-homem” – um novo homem liberto das amarras conceituais e morais do pensamento iluminista. Os conceitos nietzscheneanos foram expandidos durante o século XX, por pensadores com Heidgger, Wittgestein, Dewey, Peirse, Saussure e Foucalt. No que concerne propriamente à história, contribuiu também para esta nova concepção de “idéia”, a aproximação com a lingüística, a semiótica, a teoria da comunicação, a retórica, entre outras áreas do conhecimento. Neste contexto, o historia das idéias tende a ser substituída, conforme Chartier e Darnton, por uma história intelectual, a qual não se preocupa apenas com idéias de caráter político-funcionais, mas abrange seu foco para crenças não-articuladas, opiniões amorfas, suposições não-ditas, ou seja, com os processos de significação de determinadas idéias, que tomam a forma de “espírito de épocas” ou “mentalidade coletiva”.
Entretanto, o Iluminismo teve uma considerável contribuição para o estudo das idéias ao defini-las enquanto imanentes ao ser humano e não mais como uma instância transcendente conforme a patrística de Santo Agostinho. No seguinte ao das “Luzes”, a Ilustração recebeu críticas e louvores. No que concerne às primeiras, o romantismo foi o movimento principal. Já o segmento histórico-filosófico herdeiro da tradição setecentista pode ser agrupado em uma concepção genericamente chamada de “positivismo”. O romantismo caracteriza-se por ser um gênero literário idealizador do passado, para tal, busca evidências em documentos, ao mesmo tempo que induz à imaginação, à reflexão e à subjetividade. Um dos principais herdeiros do romantismo é o filósofo alemão Hegel e o historiados – de mesma nacionalidade – Ranke. Para estes pensadores as idéias possuem um papel primordial no que Humboldt chama de “idéia de cada época”. Segundo Falcon, é através desta perspectiva que podemos interpretar, com maior clareza, a famosa frase de Ranke: “[...] a tarefa do historiador é expor aquilo que realmente aconteceu”. Deve buscar compreender – não explicar – o ideário da época em questão. Outro ponto de desacordo entre os ramânticos e os iluministas é a generalidade da história. “Os historiadores opuseram ao universalismo e naturalismo iluminista a individualidade histórica irredutível aos povos e nações e do próprio indivíduo. [...] Assim, é no particular que se manifesta a presença do universal, é na diferença, e não em princípios universais, que a História se concretiza.” (p.99). Em linhas gerais é, portanto, uma epistemologia histórica adversa à explicação discursiva e simplista dos métodos generalizantes.
Em meados do século XIX, principalmente na França, desenvolveu-se uma nova concepção histórico-filosófica, cientista e evolucionista, denominada genericamente de “Positivismo”. Esse período histórico em questão foi marcado pelo advento das ciências da natureza e de seus métodos explicativos. O “espírito da época” tendia então em defender que todas as ciências deveriam ter mecanismos organizacionais como o das naturais. A sociedade, nesta perspectiva, possuía leis universais, as quais estavam acima da vontade humana. São três as correntes cientificistas deste período. A primeira é o Positivismo Comteano; a segunda, o Evolucionismo ou Darwinismo Social; e, à concluir, o Materialismo Histórico – é importante ressaltar que este último, defende a dialética como superação à explicação discursiva. Apesar de distintas entre si, estas vertentes apresentam características comuns – o que levou Cardoso a reuni-los no “Paradigma Iluminista”. No que tange as idéias, a principal contribuição deste paradigma foi a afirmação de que as idéias são produtos da realidade – socialmente determinados – e não se constituem enquanto esferas distintas do real, mas, concomitantemente, dão unidade estrutural à história.
Acima foi salientado que os pressupostos iluministas foram duramente questionados durante o século XX. Para a melhor compreensão deste século tão rico na produção historiográfica, Falcon o divide em três períodos: de 1890 a 1930, compreendendo a Belle Époque e o período entre-guerras; de 1930 a 1970, ou seja, do período que se extende da Grande Depressão ao maio de 68 e ao movimento hippie; e, por fim, de 1970 1 1995, no qual percebe-se 0 predomínio da chamada Nova História, principalmente após a falência – político-ideológica – da URSS.
Falcon foge – em métodos – da maioria dos historiadores das idéias no que concerne a periodização. Ao valorizar a importância da Belle Époque discorda dos demais que iniciam o século XX pelo primeiro pós-Guerra – como Hobsbawn na obra “Era dos Extremos”. Mas no campo da história das idéias, qual é a importância deste período? Para a resposta, o autor se baseia em Hughers, o qual afirma que este foi o período da “revolta antipositiva”. O cientismo – ou cientificismo – foi atacado por várias vertentes, das quais destacaram-se o neo-idealismo e o irracionalismo. Embora este último tenha alcançado destaque, a maioria dos movimentos defendia o resgate da razão. “Revolta Positiva. Esta expressão traduz [...] o elemento comum presente nas diversas correntes intelectuais de então. Outras denominações criadas com o mesmo fim – ‘neo-romantismo’, ‘antiintelectualismo’, ‘irracionalismo’ etc. – seriam menos precisas e abrangentes, já que estão presas às características das tradições histórico-culturais de ambientes intelectuais específicos. O caráter ‘antipositivista’, pelo contrário, indica o alvo comum, acima das diferenças, eram sempre as ‘teorias filosóficas e sociais típicas dos séculos XVIII e XIX’, quer dizer, em síntese: ‘o pensamento iluminista’.” (p.103). Há de se salientar que esta revolta foi encabeçada por pensadores burgueses, principalmente contra o que na época era conhecido – por alguns autores, notadamente de oposição – como “positivismo materialista”, que, por mais paradoxal que pareça, é o marxismo.
Com essa série de críticas ao método positivo o historicismo ganhou um sobrevida e, junto com o marxismo, foi a concepção dominante no período. E, como toda tendência normativa, foi alvo de críticas. É o período da emergência da École des Annales – a qual negava-se em admitir as idéias enquanto objeto de estudo, dado à associação já referenciada com a história tradicional – e da New History dos EUA. Os anos entre 1930 e 1960 foi marcado pela aproximação entre os marxistas e os annalistes. Segundo Cardoso, as duas primeiras gerações dos Annales são muito mais ligadas à epistemologia iluminista do que à pós-moderna. Afirmação que toma nos métodos braudelianos – essencialmente economicistas – sua sustentação argumentativa. O marxismo encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento na Grã-Bretanha, através do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico – Hobsbawn, Thompson, Hill, Anderson... Era um grupo de, aproximadamente trinta historiadores que publicavam seus artigos, principalmente, na Revista Post and Present (1953-1956). Com mais ênfase do que nas de outros autores, as obras de Thompson ressaltam a influência do cultural – da consciência, das atitudes morais etc. – nos eventos econômicos – como a formação de classes sociais. Com os eventos da década de 1960 – hippies e “maio de 68” – desenhou-se um campo para a análise das “idéias” sem o receio de perder-se em um emaranhado simplista ou regressar ao idealismo puramente hegeliano. Esta nova tendência passou a ser chamada de “Nova História Intelectual”. Podemos então afirmar que o período foi marcado pela re-introdução das idéias, enquanto categorias de análise, em conceitos expressados como “espírito de época” e “imaginário coletivo”.
O último período da divisão de Falcon – de 1970 a 1995, a lembrar que a obra analisada é deste último ano – foi marcado por uma considerável multiplicidade disciplinar. No campo das “idéias objeto de estudo” se destacaram a New Intellectual History, no mundo anglo-saxão, e a História Sociocultural, na academia francesa. Além dessas – que possuem as idéias como objetos em si – ainda na França, a História das Mentalidades acresceu à este “objeto” uma considerável importância. Entretanto é o período da ascensão do pós-modernismo – do qual o autor não se mostra muito simpático – não só na história disciplina, mas também na lingüística, na semiótica, na filosofia entre outras áreas do conhecimento. Portanto, para elaborar qualquer esboço sobre a história da História das Idéias neste período é preciso ter claro esta bi(multi)polarização da disciplina histórica e da prática historiográfica. Em um extremo se encontra a tendência que defende a intrínseca relação entre o mundo “real” e o universo das “idéias” e, em outro, a perspectiva pós-moderna que defende o estudo das “idéias” em sua dinâmica textual – dissociado da práxis – considerando apenas suas formas de dimensão e representação discursivas.
Herdeiros das tradições iluministas – marxistas e estruturalistas – os historiadores adeptos da primeira tendência podem ser divididos – ou subdivididos – em dois grupos principais: os que fazem uso do conceito de ideologia, ou seja, buscam compreender os explicar os fenômenos que deram origem às idéias e as funções dessas na vida social; e, os que vagamente fazem referência à terminologia “ideologia” – embora mantendo uma postura estruturalista. O primeiro grupo pode ser alinhado nas perspectivas gramschianas, althusserianas, poulantsasianas, ou mesmo nas orientações de Thompson, Hobsbawn, Jameson... Claramente, embora sob óticas as mais diversas, é predominante o marxismo – ou neo-marxismo. Fora do âmbito acadêmico materialista-histórico – mas não alheio à ele – o outro grupo, em sua maioria, é formado por historiadores annalistes, como Duby, Monchou e Vovelle. Sob este perspectiva a análise histórica deve se focar nos sistemas de representação, sendo que as idéias e ideologias ingressam na ordem dos processos simbólicos. É a chamada História Sociocultural, enquanto o grupo acima pode ser encaixado na chamada New Intellectual History.
A outra tendência paradigmática – a pós-moderna – é oriunda da academia francesa. Falcon afirma que o grande precursor desta corrente é o filosofo francês Michael Foucalt. Ressalta que “seus livros, no decurso da década de 1960, se despertaram algumas curiosidades e críticas, não representaram de imediato aquela espécie de vendaval que anos mais tarde a visão retrospectiva veio a atribuir-lhes.” (p.115) Para Foucalt e seus “discípulos” não são as continuidades que permeiam o campo historiográfico, mas sim as rupturas. É neste ponto que a História das Idéias ganha destaque, pois “[...] ao mesmo tempo que questiona a historiografia tradicional, [Foucalt] desenvolve sua própria explicação para o fato de ser justamente no campo das idéias que as recentes mutações metodológicas encontram as maiores resistências. [...] pois foi sempre essa história a verdadeira fortaleza do humanismo, da filosofia do sujeito e, enfim, de uma certa concepção de história [...] como História do Homem.” (p. 116).
Como anteriormente foi citado, a História das Idéias é um dos campos disciplinares de mais complexa definição. Essa condição se agravou no período pós-maio de 68. De um lado o marxismo passa por uma re-interpretação – conforme arisca Vainfas – nos quais os aspectos culturais e de representação passam a ser entendidos como de considerável relevância para a formação das classes sociais, o que faz com que as “idéias” e suas formas representativas – signos – recebam ênfase diferenciada, como se verifica na Nova História Intelectual. Trata-se de uma nova reflexão, mas, indubitavelmente, ainda é marxista, estrutural. De outro a tendência pós-moderna que chega ao extremo de afirmar que a realidade social não existe de forma relacionada – ou mesmo relacionável – à das idéias, ou seja, que estas últimas existem de forma autônoma e deve ser estudada independentemente de sua conexão com o restante. Entre estes extremos contemporâneos há a opção pela História Sociocultural oriunda na Nova História – terceira geração dos Annales – que se dedica a análise das idéias, não como ideologias nem como sistemas autônomos de representação, mas sim como sistemas de representação intrinsecamente relacionados com a prática social. Todos estes movimentos historiográficos possuem especificidades conflitantes, mas têm em comum o conceito de ruptura, de descontinuidade, como espaços temporais e históricos onde as idéias se manifestam.
Referência
FALCON, Francisco. História das Idéias: pluralidade disciplinar e conceitual. Da História das Idéias à História Intelectual e/ou Cultural. IN: CARDOSO & VAINFAS (org). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. (p. 91 a 125).
Referência
FALCON, Francisco. História das Idéias: pluralidade disciplinar e conceitual. Da História das Idéias à História Intelectual e/ou Cultural. IN: CARDOSO & VAINFAS (org). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. (p. 91 a 125).
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