HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A nova história política deve ser uma história das relações de poder.

Resenha de História e Poder de Francisco Falcon.


Transitando entre a “História das Idéias” e a “Nova História Política”, Francisco Falcon produziu obras relacionadas às duas correntes historiográficas. Em verdade salienta uma intrínseca relação entre elas, diferenciando – não é regra – o enfoque e o objeto de estudo. Foi professor na UFF e na UFRJ, atualmente é professor titular e pesquisador de História Moderna pela PUC. Desenvolveu vasta obra entre as quais a de maior destaque é “A Época Pombalina” de 1982 pela editora Ática.

É quase unanimidade associar história política ao Positivismo. A ênfase desta perspectiva sociológica nos fatos, datas e grandes homens contribuiu muito para esta associação, porém há um considerável equívoco: o positivismo desenvolveu-se em meados do século XIX, já a história política tem suas origens na Idade Antiga. Durante o século XX muitas críticas foram elaboradas para este segmento historiográfico – chamado a partir de então de História Política Tradicional (o tradicional no sentido pejorativo, como o que não instiga ou desperta curiosidade). Chegou-se até a afirmar que a política era a-histórica e ligada apenas à questões de curto tempo, não chegando mesmo a ser conjuntural.

O autor elabora um breve histórico salientando como o Estado foi se apoderando da história política tradicional e passam a ser compreendida como a única instância possível de poder: “A promoção do Estado à condição de objeto por excelência da produção histórica significou a hegemonia da história política. Daí porque [...] o poder é sempre poder do Estado – instituições, aparelhos, dirigentes; os ‘acontecimentos’ são sempre eventos políticos, pois são estes os temas nobres e dignos da atenção dos historiadores.” (p. 65).

Na Grécia Antiga desenvolveu-se uma concepção de história – memória, ou “mestra da vida”, onde os grandes feitos deveriam receber uma narrativa especial, para serem sempre lembrados. Na Idade Média a história passou a ser associada a assuntos eclesiásticos, sendo que a Igreja reunia em suas mãos os poderes secular e espiritual. A historiografia humanista não alterou este quadro. Toda a política – e narrativa política – era influenciada por conceitos maquiavélicos. Nesta perspectiva o objetivo era criar um sentido nacional ressaltando a importância do Estado.
O movimento do Romantismo também se pautará neste pressuposto, principalmente nos Estados germânicos antes da unificação política alemã de 1871. É neste contexto que a história surge enquanto ciência moderna. Embora mantivesse a ênfase na política e no poder do Estado, neste período desenvolveu-se um processo de seleção crítica das fontes históricas: com o objetivo de descrever os fatos “tal qual eles aconteceram”, como na frase de Ranke, a disciplina histórica perdeu suas características românticas – de tentar reviver o passado – e ganhou conotação científica – uma cientificidade evidentemente influenciada pelo aparato do Estado - a “História metódica”. É neste período então que o Positivismo entra em cena na oficina da história.

Salienta-se que, embora sendo a perspectiva dominante, a história política tradicional não era unanimidade. Como exemplo a estas concepções diferenciadas destacam-se as obras de Tucídides, na Grécia Antiga, de “Santo” Agostinho na Idade Média e dos filósofos iluministas, que “[...] criticaram a natureza meramente descritiva, factual e essencialmente política das histórias eruditas, propondo como alternativa uma história filosófica – uma história racional e explicativa da totalidade do devir histórico – cujo núcleo seria dado por valores universais expressos através de conceitos como cultura, civilização, liberdade [...]” (p. 64). No século XIX e princípios do XX, estes movimentos alternativos ganharam força, mas não conseguiram abalar, neste período a História Política Tradicional, eram eles: o marxismo, o neo-historicismo e os “Annales”.

O neo-historicismo propôs a ampliação do objeto de estudo da história política e do poder. Introduziu como novos conceitos o psicologismo, as expressões no campo das idéias, as motivações de grupos e movimentos sociais... A perspectiva marxista estruturalista – acusava a história política tradicional de ser desvinculada da totalidade do processo histórico e, por isso mesmo, presa fácil da ideologia das elites dominantes no objetivo de manter-se no poder, e de deter um discurso narrativo, cronológico e linear empirista. Os marxistas chegaram a afirmar que os eventos políticos eram efeitos derivados das estruturas, em outras palavras, meros subprodutos. As primeiras gerações dos “Annales” condenaram a tradicional história política de ser extremamente factual e propuseram como objeto de estudo, o homem, ou melhor, a totalidade da ação humana no tempo histórico. Nesta perspectiva estruturalista, a história política foi relegada ao segundo plano – ou mesmo lhe foi extraída a cientificidade e a historicidade.

É deveras importante perceber que estes movimentos que criticavam as concepções de política e poder na historiografia, portavam consigo novas perspectivas, sobretudo no tocante ao poder, ou aos poderes como salientou Michael Foucault, na obra “Microfísica do Poder”. Concebe-se então, a partir de 1968-70 – o movimento hippie e o de “maio de 68” foram essenciais nesse processo – que o poder não é inerente ao Estado. Está presente em toda ação social e relação humana – de classe, de gênero, na família, na escola, na fábrica... Em decorrência da radical crítica a história tradicional, a própria noção de político e poder havia sido abandonada da historiografia do período de 1950-70! Só com esta nova concepção de poder político é que renasce o interesse por estes objetos históricos: a Nova História Política.

A construção – ainda em curso – deste novo movimento historiográfico deve-se a fatores históricos contemporâneos – como a massificação da informação e o monopólio desta pela mídia ideologicamente interessada em criar um tipo de comunidade de imaginação –, à revisão de conceitos epistemológicos – principalmente no que concerne a separar o político do factual – e a fatores disciplinares, ou melhor, interdisciplinares. Em relação a este último aspecto as opiniões de historiadores são divergentes. Enquanto Julliard – e o próprio Falcon como se permite perceber – defendem a aproximação da história com a antropologia, a sociologia e as ciências políticas. Mommsen ressalta que foram pouco frutíferas as experiências deste tipo. Segundo Falcon, na página 77, para que a nova história política se legitime é preciso evitar os erros da perspectiva tradicional, aproximar-se e conhecer os métodos de outras ciências sociais e redefinir alguns dos antigos objetos da tradicional história, mas, sobretudo propor novos, e mais modernos, objetos. Dentre os objetos destacam-se as propostas de Vandermeer e Julliard. O primeiro parece ainda preso a concepções mais conservadoras, enquanto o segundo sugere os sistemas, os agentes e a dinâmica política.

A construção do conhecimento histórico no Brasil também sofreu alterações. Durante o período militar, enquanto o Estado investia na pesquisa tradicional – percebe-se aí a influência do poder na historiografia – nas academias novas perspectivas tomavam corpo como forma de contestação ao regime instituído. É neste período que o marxismo – já presente em obras de Caio Prado Jr. – ganha espaço. Porém não devemos esquecer que a repressão governamental impediu que estes novos ventos historiográficos deslanchassem. Atualmente é notável a falta de cursos de pós-graduação em História Política. Porém, a temática política é uma das mais usuais. Existem resistências por parte de historiadores em aproximar-se das demais ciências sociais. Porém, como destaca Falcon, “[...] se tivermos presente o fato de que a renovação da história política em outros centros culturais passou e passa necessariamente pelo diálogo do historiador político com a sociologia, a antropologia e a ciência política; se lembrarmos também que essa renovação teria sido impensável sem a redefinição havida em função da problemática do poder, ficará evidente que, para detectarmos mudanças e inovações, é essencial sair do território do historiador tomado em seu sentido exclusivo. Caso contrário iremos encontrar apenas o velho recitativo que constitui a história política tradicional, tal como a definiram, e criticaram, os Annalistes.” (p. 88).

Referências

FALCON, Francisco. História e Poder. IN: CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da História: ensaios da teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

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