HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dentro ou fora da história

Bruno Antonio Picoli
Historiador
http://lattes.cnpq.br/0720220622377411



Eric Hobsbawm é um dos maiores nomes da historiografia moderna. Crítico do pós-estruturalismo organizou, com outros historiadores, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico que deu origem a chamada Nova Historia Intelectual, de orientação marxista. As principais obras deste autor são: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Tempos Interessantes”, “Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo”, “Ecos da Marselhesa”... Com base na análise da prática historiográfica, o autor conclui que o período contemporâneo é caracterizado muito mais pela preocupação e interesse em questões conceituais ou metodológicas do que nas pesquisas concretas em si, o que leva a disciplina histórica a passar por vários modismos e ser utilizada como ferramenta política nas mãos de grupos xenófobos e/ou fundamentalistas – político e/ou religiosos. O autor é considerado um dos principais neo-marxistas – junto com Thompson, Anderson... – pois, conforme salienta no prefácio da obra da qual este artigo foi extraído, defende

[...] a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não são. [...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história. (p.8)

Nesta afirmação faz questão de posicionar-se como um crítico às concepções que defendem que não existe fato, ou melhor, que estes são apenas constructos do intelecto social, ou seja: discursos. É com tal postura que Hobsbawm desenvolve sua obra e o artigo aqui resenhado.

Artigo este produzido para um público especial em um contexto histórico peculiar mas de grande valia para a compreensão da história , seus usos e abusos, principalmente do ponto de vista histórico-discursivo. O público era formado por jovens estudantes da Universidade da Europa Central, em Budapeste, Hungria. O período era 1993-4, provavelmente a fase mais conturbada da história da Europa Central e Oriental. O surgimento e desaparecimento de Estados era comum. A questão da nacionalidade uma incógnita. Esses países – dos quais a maioria surgiu no pós-1991 – estavam mergulhados em uma crise marcada pela incessante substituição de modelos político-econômicos iniciada no pós-Primeira Guerra Mundial – democracia liberal, fascismo, socialismo soviético e neoliberalismo. Era o período do “fim da história”, conforme Fukuyama, em que o capitalismo tornou-se força hegemônica sem concorrente expressivo – ou mesmo temporariamente sem concorrente nenhum – e em que os países do oriente e centro europeu não conseguiam atingir o patamar de “desenvolvidos”, conforme a classificação dos economistas. A tendência comum desses países, no intento de desenvolver seus mecanismos produtivos e sua dinâmica de consumo, foi/é adotar o modelo Reagan/Tatcher, ou seja, o neoliberalismo. No tocante à este modelo, o autor explicita seu caráter marxista ao afirmar que não vingou nem nos países ricos em que surgiu (EUA e Reino Unido). Mas sem dúvidas, para Hobsbawm, este não era o principal problema. Este modelo estava conduzindo estes países à crises estruturais. Sua população seria frustrada com o passado, descontente com o presente e insegura no que concerne ao futuro: momento ideal para extravagâncias políticas legitimadas pela história, ou melhor, por uma noção vaga e distorcida de história.

O problema principal portanto, para os países da Europa Centro-Oriental – e podemos acrescer aqui qualquer país que se encontre em crise e/ou ameaça – é a possibilidade da emergência de posturas políticas de extrema direita – fascistas, xenófobas, fundamentalistas... – legitimadas por historiadores imbuídos em um projeto político ou simplesmente “inconseqüentes”. Afirma, de forma muito pessoal, que

Nessa situação os historiadores se vêem no inesperado papel de atores políticos. Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. [...] Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica ao abuso político-ideológico da história em particular. (p.17)

Quando não existe um passado satisfatório, basta um pouco de papel – e algumas mentes interessadas – para que ele passe a existir. As tendências contemporâneas debatem muito entre a diferenciação entre fato e ficção. Mas não para diferenciá-los enquanto objeto de estudo, e sim para afirmar que a diferenciação é apenas fruto de um constructo moral e discursivo e que todas as acepções sobre um mesmo fato/evento estão corretas e coerentes – mesmo as que se contradizem entre si. Sob esta perspectiva no que diz respeito à Europa Central e Oriental – todos os movimentos fundamentalistas encontrariam a razão de ser. Pois – é importantíssimo salientar – quase todos se baseiam em um mito de origem legitimador criado por algum pseudo-historiador – não no sentido da Psico-História dos Annales.

Não são só os historiadores que se ocupam do passado das sociedades humanas – portanto há outros pensadores que compartilham essa responsabilidade política. No concernente à formação de mitos e narrativas ultranacionalistas e legitimadoras concorrem com esses “historiadores” muitos jornalistas e escritores pós-modernos – sejam profissionais da história ou não. A literatura neo-romântica tende a embelezar o passado com um discurso saudosista confundindo, propositadamente, fato e ficção. Para entender a grandeza deste problema: as principais bases de legitimação do nazismo, no que tange à “criação do espaço vital”, era oriunda de textos literários românticos que tratavam do Sacro Império Romano-Germânico, ou, como muitos ainda preferem, I Reich. Confundir mito e realidade não é uma exclusividade destes pensadores. Muitos historiadores – adeptos às teorias de Foucalt e à autodenominada Nova História Francesa – afirmam que os objetos de estudos devem ser, exclusivamente, os sistemas de representações discursivos. Em linhas gerais: não importa se o fato possui algo que o evidencie ou não, e sim como os agentes de determinados grupos sociais compreendem este fato, ou melhor, o que os levou a compreender o fato da maneira como o fazem. Esta perspectiva historiográfica excessivamente hermenêutica foi/é utilizada por políticos que, por exemplo, entender no holocausto nazista a legitimação do Estado de Israel e a subseqüente opressão dos palestinos por esse Estado. O que qualquer ser pensante perceberia que não tem sentido.

Mas qual é então a função de um historiador em um contexto como este? Ou melhor, qual deve ser a função de um historiador sério – conforme argumenta o autor? A resposta pode parecer a mais simples, porém é repleta de implicações. Deve buscar argumentos para desconstruir os mitos legitimadores. Em outras palavras é não se permitir aos exageros das paixões políticas padronizantes. As complicações são as mais variadas, mas se destacam duas: as possíveis perseguições dos demais “historiadores”, adeptos das teorias pós-modernas; e a impopularidade quase certa. Pouco se precisa dizer no que tange à primeira questão. Já no que concerne à segunda, o historiador precisa ter ciência de que a compreensão popular de história não é a mesma que a dos profissionais. Segundo Hobsbawm,

História não é memória ancestral ou tradição coletiva. É o que as pessoas aprendem de padres, professores, autores de livros de história e compiladores de artigos para revistas e programas de televisão. É muito importante que o historiador se lembre de sua responsabilidade, que é, acima de tudo, a de se isentar das paixões de identidade política [...] (p. 20)

Pois se é a história a matéria-prima destes mitos legitimadores de ideologias extremistas, é com a produção historiográfica que se combate.

Pode parecer frustrante, mas é a poucos ouvidos que esta “versão da história” chega. A maioria dos jovens – estudantes ou não – tem sua mentalidade e pensamento formado por idéias maçantes, padronizadas e divulgadas por um aparelho ideológico – normalmente a mídia. Mas é – paradoxalmente ou não – à estes ouvidos, à estas mentes que o historiador deve direcionar seus argumentos. São eles que sempre precisarão de nossa “ajuda” e orientação. As mentes brilhantes “se viram sós”, são capazes de perceber os nuances dos discursos e práticas políticas. É de grande valia perceber que o texto de Hobsbawm – de 1993-4 – ao expor o contexto histórico da Europa Central e Oriental salientou o risco do surgimento de governos xenófobos – os quais afirmam que o subdesenvolvimento de seus países era causado por agentes oriundos de fora – o que se verificou na Croácia, na Sérvia, na Bósnia... Não se trata de previsão, mas de consciente análise de um historiador experiente e comprometido com o social. Os mitos devem ser percebidos em sua gestação, quando os argumentos ainda não ganharam popularidade e, isso só é possível, com a comprometida atuação do historiador – ou cientista social – que discerne claramente o que é fato do que é ficção.



Referência

HOBSBAWM, Eric. Dentro e Fora da História. IN: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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