HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

domingo, 20 de junho de 2010

Tipos de casas, de Günter Weimer

Regina Miliorança
Acadêmica de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade do Oeste de Santa Catarina

Günter Weimer, arquiteto, nasceu em 1939, em Estrela – RS. Possui graduação em arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (1963), mestrado em História da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS (1981), doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo – USP (1990). É especialista em desenho industrial e professor titular do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (PROPUR) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atua principalmente nos seguintes temas: arquitetura popular, história da arquitetura, imigração alemã, açorianos no Brasil e Rio Grande do Sul.
Nesta resenha estaremos analisando o artigo Os tipos de casas de Günter Weimer, presente na obra Arquitetura Popular Brasileira do mesmo autor, publicada pela editora Martins Fontes, no ano de 2005. O artigo compreende o capítulo VI (p. 193 a 226) da referida obra. O autor divide seu texto em duas partes: “A” e “B”, das quais trataremos abaixo.
Na primeira parte, o autor elucida as contribuições dos tipos de casas do colonizador português. Que se resume em casa térrea de uma porta e uma janela. Nos casos onde a largura do terreno era mínima – alguns não chegavam a 2,20 metros – geralmente as casas eram integradas por meio do mesmo tratamento plástico (p. 197); dessa junção das fachadas resultava uma simetria que podia tanto ser de translação (porta/janela/porta/janela), quanto de reflexão (uma espécie de espelho, uma o reflexo da outra).
As casas que apresentavam três janelas recebiam o nome de “casa de três quartos”, nesse caso, a porta podia ser colocada numa extremidade ou entre as janelas. Outra possibilidade, é o emprego de mais de uma porta: uma estava vinculada à moradia e a(s) outra(s), geralmente, a funções complementares (bodega, oficina, uma venda, etc.)(p. 201). Era muito comum também, as chamadas “casa de morada inteira”, em que a porta era colocada no centro do volume. A quantidade de portas, janelas, e o número de pavimentos da casa estava diretamente ligada às posses e ao conhecimento do proprietário, em geral, essas casas recebiam o nome de “casa de morada e meia”.
Tem ainda as casas em que o sótão era habitado. Isso porque as casas térreas sempre foram relacionadas à pobreza, nesse contexto as famílias que não tinham condições financeiras favoráveis construíam um sobrado para deixar aparente a sua “privilegiada posição social”, mesmo que esse cômodo fosse de dimensões mínimas, denominado “camarinha”. Nesse caso, os sobrados também eram anexados para dar a impressão de se tratar de um único grande casarão (p. 209)..
Na segunda parte fala das contribuições das casas dos imigrantes negros, mais precisamente, dos africanos. Seus tipos de casas mais comuns são de mocambo, ou seja, de cumeeira com duas e, raramente, quatro águas. No início, o material utilizado no telhado era folhas ou fibras, percebendo que não duravam muito e tinham de se substituídas constantemente, passaram a cobrir suas casas com telhas de cerâmica que demandavam um investimento maior no começo, mas que era recompensado com sua maior durabilidade. Atualmente utiliza-se chapas de cimento-amianto.
Uma coisa bem curiosa da arquitetura africana é a existência da janela há pouco tempo. Isso se deve ao exemplo das senzalas dos escravos onde eram trancafiados sem ventilação com a desculpa de que poderiam fugir pela janela, daí também, a altura do pé-direto das construções para que o escravo não pudesse se enforcar. A introdução da janela na arquitetura angolana decorreu das influências do colonizador em Angola.
Essa tipologia de casas sofreu algumas alterações. No começo era apenas só um compartimento e uma só porta. Depois continuaram com um só compartimento, mas com uma porta na frente (chamada “dos homens”) e outra oposta, nos fundos, a “das mulheres”. Por fim, um só compartimento, uma porta e uma janela. Essa tipologia se tornava mais variada quando as casas recebiam divisões internas. De imediato, uma parede com uma porta dividindo a casa transversalmente ao meio. Depois, um pouco mais complexo, uma parede longitudinal sob a cumeeira e outra transversal no meio da casa.
Embora haja casas sem nenhuma janela, a regra é que cada cômodo tenha a sua, mesmo que pequena. O fator climático também influencia na adesão ou não de um número maior de janelas. Por fim, o modo como são utilizados os quintais e pátios difere origens tribais. Os quimbundos, por exemplo, fechavam seus pátios com cercas compactas, já os benguelas utilizavam cercas de galhos entrelaçados; e, as casas redondas da África deram lugar aqui às retangulares ou, eventualmente, quadradas.
O texto é de fácil compreensão, utiliza-se de uma linguagem acessível. Cumpre com a sua proposta de apresentar os diferentes tipos de casas no período de colonização portuguesa no Brasil. Para possibilitar ao leitor um maior entendimento visual, Weimer faz uso de figuras obtidas por meio de intensa pesquisa. Constitui-se obra de grande valia para estudantes de graduação em arquitetura, pois aborda a relação entre arquitetura e a cultura de uma determinada população.

Referência

WEIMER, Günter. Os tipos de casas. In: Arquitetura Popular Brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2005. pp. 193-226.

Nenhum comentário:

Postar um comentário