HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

domingo, 20 de junho de 2010

OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS DE NORBERT ELIAS E JOHN SCOTSON

Bruno A. Picoli
Graduado em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina
Mestrando em História Regional pela Universidade de Passo Fundo

O trabalho dos professores Norbert Elias e John Scotson possibilita uma oportunidade para o debate sobre a importância da realização de estudos em escalas regionalizadas, pois estes possibilitam, além de perceber especificidades de processos sociais, a criação de modelos teóricos para ser testados – e evidentemente atualizados – em outras realidades sociais (p. 20-1). O projeto original era investigar o alto índice de violência juvenil que se demostrava na comunidade estudada, entretanto, o olhar foi redirecionado para o processo de segregação e estigmatização social – fonte de tais problemas juvenis. A partir desse novo enfoque, a obra tornou-se um referencial metodológico e teórico sobre um dos principais problemas – objetos – das ciências humanas: as relações de interdependências e os processos de estigmatização ente grupos humanos.
Processos de estigmatização social são comuns em vários países, regiões e espaços, principalmente nos que passaram por transformações recentes na sua estruturação social, étnica, cultural, econômica etc. Diante à imagem do outro os grupos sociais tendem a valorizar suas características diferenciais ou, pelo menos, atribuir valores depreciativos às do grupo oposto. É comum atribuir à esse processo as características de preconceito étnico, racial, religioso, de classe etc. Entretanto, Norbert Elias e John Scotson, com base nos resultados que obtiveram ao pesquisar os fatores que levam à segregação e estigmatização social em uma pequena comunidade urbana inglesa chamada Winston Parva, questionam essa perspetiva, atribuindo-lhe um caráter complementar, afirmando que os principais motivos para tais eventos são as relações diferenciais de poder e o receio do grupo superior perder seu status, ou ter seu modo de vida alterado no contato com os de fora (outsiders).
O que os autores encontraram foi uma contexto um tanto quanto peculiar: uma comunidade com uma clara separação entre dois grupos, sendo que um – o stablishment – considerava-se superior ao outro – os outsiders. Entretanto, a surpresa maior se dá no fato de que não de configurava nenhuma distinção física, de nacionalidade, religiosa, de classe social, de sotaque linguístico, entre os envolvidos. Mesmo dessa forma, os estabelecidos entendiam-se como que dotados de qualidades humanas superiores, das quais o outro grupo não era beneficiado. A perspectiva da superioridade legitimava a exclusão dos outsiders dos círculos sociais constituídos.
Mas qual o(s) fator(es), então, que possibilitou(aram) tal distinção? De acordo com os autores, um dos grupos que habitava o bairro já estava estabelecido nesta região a, pelo menos, três gerações (p. 22 e 24), possuíam uma coesão grupal, uma passado em comum, uma história, além de possuírem vínculos sólidos que tinham origens nas relações entre os ancestrais. Por sua vez, os novos habitantes que, devido ao surto de industrialização na região, se “estabelecem” neste espaço, não conhecem os antigos moradores, assim como se desconhecem entre si. Faltava a este grupo a coesão que o outro possuía. Isso garantiu, ao grupo coeso, o domínio das instituições políticas da comunidade, como a diretoria do bairro, da escola, do clube etc.
Levando em consideração que inexistem diferenças físicas, étnicas, raciais entre os dois grupos, Elias e Scotson afirmam que ao determinar que todo processo sociodinâmico de estigmatização/marginalização é derivado daqueles determinantes desfoca-se o olhar para uma característica periférica ou complementar. Conforme salientam: “Ao empregá-los, chama-se a atenção para um aspecto periférico dessas relações […], enquanto que desviam os olhos daquilo que é central (por exemplo, os diferenciais de poder e a exclusão do grupo menos poderoso dos cargos com maior potencial de influência).” (p. 32). Concernente a questão dos diferenciais de poder, o grupo estabelecido a mais longa data (influência temporal), por possuir uma coesão, mantinha uma certa ação coletiva coerente, respeitando antigos hábitos, observando antigas tradições, as quais, aos novos moradores, pareciam estranhas e carentes de significação.
Os autores criticam a atual tendência, comum nas ciências médicas, mas também nas sociais e humanas, de discutir o problema da estigmatização como sendo um processo em que o indivíduo – e não o grupo – demonstram preconceitos com relação à outras pessoas ou grupos (p. 23). Entretanto, a sociodinâmica de tal processo não se dá no plano do indivíduo, mas, sim, no do coletivo – toda representação é social, se manifesta balizada nos quadros sociais existentes. O indivíduo não é um ser isolado, está em constante contato – em interdependência – com, no mínimo, um grupo, o qual lhe estabelece normas de conduta e conceitos, os quais servem como lentes para ver o mundo.
A submissão à estas normas coletivamente impostas tem como benefício (benefício simbólico) o auto-entendimento como partícipe de um grupo social superior, portador de um carisma grupal singular. O outro, o de fora (outsiders), representa uma ameaça a esta estabilidade. No caso de Winston Parva o grupo que se fixa depois não é portador de um ideário que lhe sustente um auto-imagem de superior – como o que acontece no caso da colonização do Alto Uruguai brasileiro no século XX, onde o grupo de fora, respaldado pela lei vigente forma o stablishment, fazendo dos já estabelecidos, os caboclos, os outsiders – de tal modo que os estabelecidos possuem um diferencial de poder superior.
Interessante perceber que esta relação se dá com tamanha força que o grupo marginal, com o tempo, acaba aceitando este ideário no qual eles são inferiores, numa espécie de resignação coletiva, julgando-se humanamente inferiores (p. 20). Nesse ínterim, essa divisão de poder se acentua, principalmente através da utilização de adjetivos pejorativos por parte do stablishment para se referir aos membros do outro grupo. Sobre essas expressões, os autores inferem que “Seu poder de ferir depende da consciência que tenham o usuário e o destinatário de que a humilhação almejada com seu emprego tem o aval de um poderoso grupo estabelecido, em relação ao qual o do destinatário é um grupo outsider, com menores fontes de poder.” (p. 27). Desse modo, os adjetivos só fazem sentido quando ambos sabem qual o objetivo de sua aplicação. Sendo assim, um membro de um grupo outsider não tem como atingir um membro do grupo estabelecido com uso de adjetivos. Quando este se sente ferido é sinal que os diferenciais de poder – que são processos dinâmicos – estão mudando.
No tocante ao objetivo inicial da pesquisa, os autores concluem que a rebeldia dos jovens era decorrente desse processo de estigmatização social. O fato de sentirem-se rejeitados socialmente, era um incentivo para perturbar os membros do outro grupo: “Eles gostavam de fazer exatamente as coisas que lhes eram censuradas, como um ato de vingança contra aqueles que os censuravam.” (p. 30). Em tese o problema estava não na violência juvenil, mas na violência intergrupal. Concluem que o grupo estabelecido, por sua vez, também sofreu um violência, ou pelo menos pensou estar sofrendo. O constante ingresso de novos indivíduos em sua comunidade pôs em risco seu modo de vida. Conforme afirmam os autores, sentiram-se expostos a um triplo ataque: contra sua fonte de poder, seu carisma coletivo e suas normas sociais. Novamente percebemos que é diante da presença do outro que os grupos sociais supervalorizam o que é de seu universo, criam barreiras emocionais para os proteger, censuram todo tipo de transgressão endógena. Enfim, a identidade, o auto-reconhecimento, é um processo coletivo e intergrupal – podendo tornar-se interétnico, inter-religioso etc.
Referência

ELIAS, Norbert; SCOTSON, Jonh. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

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