HUMANIDADES E OUTROS DEBATES

Blog do Grupo de Estudos em História e Demais Humanidades - GEHH

domingo, 27 de junho de 2010

A MEMÓRIA COLETIVA

Bruno A. Picoli
Graduado em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina
Mestrando em História pela Universidade de Passo Fundo


Para Halbwachs (apud TEDESCO, 2004) toda memória é social, coletiva. Por mais que o ato de rememorar seja individual, os conceitos e as percepções expressadas se constituem mediados pela cultura na qual o enunciador está inserido. Por essa ótica poderíamos afirmar que um mesmo evento presenciado por um grupo de pessoas culturalmente heterogêneo será percebido de maneiras diferentes: alguns poderão se referir ao ocorrido como um ataque à moral, uma cena que não lhes sai da cabeça, enquanto outros podem nem lembrar de tal fato quando forem fazer referência ao seu passado.
A memória também pode ser enquadrada, conforme interesses políticos, culturais, religiosos. Como exemplo, podemos citar a construção do gauchismo no Rio Grande do Sul, que, por meio da mídia e de movimentos culturais pratica a defesa de uma cultura homogênea que se aplica a todo legítimo habitante do estado. Isso também pode ser percebido entre pessoas que participaram de movimentos sociais e políticos que, além da organização pela luta pelos direitos, promovem cursos de formação. Há uma padronização do/no discurso de memória.
É importante salientar que, no caso do enquadramento da memória coletiva, existe um (ou vários) grupo minoritário que se preocupa em produzir memória. Para tal empreito, precisam fazer uso de conceitos e símbolos já de uso comum, o que garante uma aparência de continuidade, da tradição, de algo que vêm desde tempos imemoriais. De acordo com Tedesco,

"Nesse processo de naturalização da identidade étnica, a memória exerce um papel importante através da manifestação de símbolos evocativos de pertencimento (lembrar a simbologia do germanismo na construção da ideologia nazista), de seleção, de esquecimento, ou melhor, de uma construção de memória em questão, de representações que são ativadas e provocadas num cenário em que existem simbologias de etnicidade e vontades manifestas de estabelecer diferenças." (2004: 184-5)

Faz-se notar que a busca por consolidar uma identidade invariavelmente se faz ante a presença do outro. Diante da ameaça de perder o espaço de vivência ou a necessidade de legitimar um processo de exclusão e ocupação de terras de outrem no qual se é agente exclusor, aflora a necessidade de ressaltar, por meio das características étnicas, sociais, religiosas e culturais o seu legitimo direito sobre este espaço. Percebemos que a identidade se constitui antes num processo de negação (do outro, dos de fora) do que de afirmação (dos de dentro), alem de que se constitui num tempo e espaço determinados.
O sentimento de pertencimento é uma necessidade inerente no ser humano. A vida em sociedade exige aceitação e integração em redes de relacionamento nas quais se realizam as atividades religiosas, culturais, etc. Entretanto, a identidade não é um sentimento imutável, mas, pelo contrário, está sujeita a constantes atualizações e ressignificações. Nesse processo de presentificação em que ocorre a renovação – ou não – da identidade, do sentimento de pertença, também ocorre a atualização dos objetos constituintes dessa identidade. “Atravessando gerações e cruzando temporalidades, os objetos de memória vão adquirindo outros sentidos na sucessão temporal, mantendo, no entanto, a referência constante à sua origem” (TEDESCO, 2004: 190). Essa origem, normalmente é representada por um mito fundador.
É consenso entre os pesquisadores que fazem uso da memória – principalmente da memória oral – de que o passado é atualizado a cada rememoração. A reconstituição do passado, portanto, está condicionada à conjuntura presente. Ao rememorar, o enunciante traz do passado apenas o que, em sua percepção, tem importância para o presente. Isso nos induz a pensar que, uma mesma pesquisa, realizada com os mesmos entrevistados, porém em tempos diferentes, podem chegar a respostas e problemáticas demasiado diferentes. Sobre essa questão, Tedesco (2004: 209) infere:

[...] não é o resíduo, o que resta. É, sim, o que luta e desafia o moderno; busca encontrar espaços de significância no presente, não meramente como tradição, mas como presentificação, como pertencimento, em outras palavras, como útil ao que o moderno apresenta como importante hoje. Porém, a leitura do passado e suas ações não é feita com os pressupostos do moderno e do presente, ou seja, como decorrente; são, sim, racionalidades internas, resgatadas no tempo para preencher vazios do tempo atual.

Se todo processo de rememoração envolve a presentificação dos conteúdos do passado, podemos afirmar que a memória, mesmo sendo coletiva, social, permite processos de individuação. Levando em consideração que é o sujeito que lembra quem seleciona (memória seletiva) os objetos para enunciar, devemos ser sensíveis à relação lembrar-esquecer. Segundo Halbwachs – e Tedesco (2004) corrobora em seguida – o esquecer é tão importante para o presente quanto o lembrar. O esquecer possibilita a criação, o futuro. Outra problemática advém dessa relação no tocante ao que foi lembrado: por que o foi? Por que o foi dessa forma? O significado do que foi enunciado não está inscrito explicitamente em si. O pesquisador deve se preocupar em compreender o que está subjacente ao fato enunciado. Se faz necessária nesta prática a abordagem fenomenológica.
Nem mesmo os recursos materiais utilizados para soltar a memória (como fotografias, poemas, cantos...) possuem em si sua significação. Talvez a fotografia seja o exemplo mais completo dessa relação de aparente realidade explicitada e manipulação da realidade. As fotografias dos antigos normalmente apresentam uma idealização do passado. Raramente há imagens do trabalho nos campos e, mesmo entre os mais humildes, a hora da foto era um evento. A fotografia então possibilita um fragmento de realidade, ou, o que é muito freqüente, uma realidade virtual, onde todos estavam com as melhores roupas, montados nos mais bem encilhados equinos...
Notemos então que os próprios objetos que dão suporte à memória passam por um processo de ressemantização. Entretanto, esse processo contribui para dar um novo sentido ao passado e, principalmente no âmbito familiar, contribui para a manutenção de uma memória coletiva significante. Na família se entrecruzam diferentes gerações e o contato dos idosos com as crianças garante àqueles uma continuidade nestes. Os objetos perdem seu significado original, mas não perdem o significado.
Referências
TEDESCO, J.C. Nas Cercanias da Memória: temporalidade, experiência e narração. Passo Fundo, RS: UPF; Caxias do Sul, RS: EDUCS, 2004.

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